Ao bento Jesus,
E ao padre eternal
Pedi que perdoe
A quem morreu mal.
Ave Maria!
Sancta Maria!
Esta longinqua toada perdeu-se no som de outra bem diversa, que se alevantou mais perto dos dous cavalleiros. Uma voz esganiçada dava o seguinte pregão:
"….Justiça que manda fazer elrei em Fernão Vasques, João Lobeira e Fr. Roy: que morram na forca, sendo ao primeiro as mãos decepadas em vida."
Os cavalleiros abaixaram os olhos para o logar d'onde subíra a voz: era no terreiro proximo: os três padecentes e o algoz, cercados de alguns bésteiros, aproximavam-se do cadafalso: varios vultos negros fechavam o prestito: daquella pinha partira a voz do pregoeiro.
Este pregão, dado a horas mortas e n'uma praça deserta, parecia um escarneo. Mas o corregedor da côrte era affamado jurisconsulto e nós temos ouvido a alguns que na execução das leis as fórmas são tudo. Assim piamente o cremos.
Duas se tinham, porém, esquecido: os desgraçados morriam, como aquelles que o salteador assassina na estrada, pela alta noite, e sem um sacerdote que os consolasse na extrema agonia.
O algoz empurrou brutalmente um dos padecentes para uma especie de marco escuro que estava ao pé do patibulo. D'ahi a nada os cavalleiros viram reluzir duas vezes um ferro: ouviram successivamente dois golpes dados como em vão, seguindo-se a cada um delles um grito de terrivel angustia.
O conde de Barcellos quiz rir-se, mas a risada gelou-se-lhe na garganta, e, como Gonçalo Telles, recuou involuntariamente.
O grilo que restrugira, chegára aos ouvidos d'elrei.
"Que bradar de homem que matam é este?—perguntou elle.