"Falae desassombradamente:—respondeu elrei—que eu vos escuto."

"Tomei a ousadia—proseguiu mestre Ouguet—de seguir outro desenho no fechar da immensa abobada que cobre o capitulo: o que achei na planta geral contrastava as regras da arte, que aprendi com os melhores mestres de pedraria. Era até impossivel que se fizesse uma abobada tão achatada, como na primitiva traça se delineou: eu, pelo menos, assim o julgo."

"E consultastes o architecto Affonso Domingues, antes de fazer essa mudança no que elle havia traçado?—interrompeu elrei.

"Por escusado o tive:—replicou David Ouguet.—Cégo, e por isso inhabilitado para levar a cabo a edificação, teimaria que o seu desenho se póde executar, visto que hoje ninguem o obriga a prova-lo por obras. Sobra-lhe orgulho: orgulho de imaginador engenhoso. Mas que vale isso sem a sciencia, como dizia o veneravel mestre Vilhelmo de Wykeham? Menos engenho e mais estudo, eis do que havemos mister."

"Dizendo isto o architecto, mettêra ambas as mãos no cincto, estendêra a perna direita excessivamente empertigada, e com a fronte erecta volveu os olhos solemne e lentamente para os circumstantes.

"Mestre Ouguet—acudiu elrei com aspecto severo—lembrae-vos de que Affonso Domingues é o maior architecto portuguez. Não entendo de vossas distincções de sciencia e de engenho: sei só que o desenho de Sancta Maria da Victoria causa assombro a vossos proprios naturaes, que se gabam de ter no seu paiz os mais affamados edificios do mundo: e esse mestre Affonso, de quem vós falaes com pouco respeito, foi o primeiro architecto da obra que a vosso cargo está hoje."

"Vossa mercê me perdoe:—tornou mestre Ouguet, adocicando o tom orgulhoso com que falára.—Longe de mim menoscabar mestre Domingues: ninguem o venera mais do que eu; mas queria dar a razão do que fiz, seguindo as regras do mui excellente mestre Vilhelmo de Wykeham, a quem devo o pouco que sei, e cuja obra da cathedral de Winchestria tamanho ruido tem feito no mundo."

Com este dialogo chegou aquella comitiva ao portal, que dava para a casa do capitulo: Fr. Lourenço Lamprea, como dono da casa, correu o ferrolho com certo ar de auctoridade, e encostado ao umbral cortejou a elrei no momento de entrar, e aos mais fidalgos e cavalleiros que o acompanhavam. Mestre Ouguet, como pessoa tambem principalissima naquelle logar, collocou-se juncto do umbral fronteiro, repetindo, com aspecto sobranceiro-risonho, as mesuras do mui devoto padre prior.

Quando elrei entrou dentro daquella espantosa casa, apenas através da grande janella que a allumia entrava uma luz frouxa, porque o sol estava no fim de sua carreira, e o tecto profundo mal se divisava sem se affirmar muito a vista. Mestre Ouguet ficára á porta, mas Fr. Lourenço tinha entrado.

"Reverendo prior—disse elrei voltando-se para Fr. Lourenço—vim tarde para gosar desta maravilhosa vista: vamos ao auto da adoração, e ámanhan voltaremos aqui a horas de sol."