E seguiu para a banda da sacristia, cuja porta lhe foi abrir o prior.
Mestre Ouguet entrou na casa do capitulo, quando já os ultimos cavalleiros do sequito real íam saindo pelo lado opposto, caminho da igreja. Com as mãos mettidas no cincto de couro preto que trazia, e a passo mesurado, o architecto caminhou até o meio daquella desconforme quadra. O som dos passos dos cavalleiros tinha-se desvanecido; e mestre Ouguet dizia comsigo, olhando para a porta por onde elles haviam passado:
"Pobres ignorantes! que seria o vosso Portugal sem estrangeiros, senão um paiz sáfaro e inculto? Sois vós, homens brigosos, capazes dos primores das artes, ou sequer de entende-los?.. Lá vão, lá vão os frades celebrar um auto! Não serei eu que assista a elle; eu que vi os mysterios de Coventria e de Widkirk! Miseraveis selvagens, antes de tentardes representar mysterios fôra melhor que mandasseis vir alguns irmãos da sociedade dos escrivães de parochia de Londres[1], que vos ensinassem os verdadeiros momos, ademanes e tregeitos usados em semelhantes autos."
Mestre Ouguet estava embebido neste mudo soliloquio, em louvor da nação que lhe dava de comer, e o que deveria pesar-lhe ainda mais na consciencia, da nação que lhe dava de beber, quando erguendo casualmente os olhos para a macissa abobada, que sobre elle se arqueava, fez um gesto de indizivel horror, e como doudo correu a bom correr pela crasta solitaria, apertando a cabeça entre as mãos, e gritando a espaços:
"Oh, malaventurado de mim!"
[1] Pelas Chronicas de Stow se vê que no principio do seculo 15.° os mysterios eram representados em Londres pelos escrivães de parochia, incorporados em sociedade por Henrique 3.°, em 1409.
O AUTO.
Juncto a uma das columnas da igreja de Sancta Maria da Victoria estava levantado um estrado, sobre o qual se via uma grande e macissa cadeira de espaldas, feita de castanho, e lavrada de curiosos bestiães e lavores: era este o logar onde elrei devia assistir ao auto da adoração dos reis. No mesmo estrado havia varios assentos rasos para nelles se assentarem os fidalgos e cavalleiros que o acompanhavam. Defronte do estrado e collocado ao pé do arco da capella do fundador corria para um e outro lado da parede um devoto presepio[1], mui erguido do chão, e representando serranias agrestes, ao sopé das quaes estava armada uma especie de choça, onde sobre a tradicional manjadoura se via reclinado o menino Jesus, e de joelhos juncto delle a Virgem e S. José, acompanhados de varios anjos, em acto de adoração. Diante da cabana corria, no mesmo nivel, um largo e grosseiro cadafalso de muitas táboas, para o qual, por um dos lados, davam serventia duas grossas e compridas pranchas de pinho, por onde deviam subir as personagens do auto.
Tanto que elrei saíu da porta do cruzeiro que dá para a sacristia, encaminhou-se pela igreja abaixo, e veio assentar-se na cadeira de espaldas, conduzido por Fr. Lourenço, que com todos os modos de homem cortezão offereceu os assentos rasos aos demais cavalleiros e fidalgos.
Pela mesma porta da sacristia saíram logo as primeiras figuras do auto, que, descendo ao longo da nave, subiram ao cadafalso pelas pranchas de que fizemos menção.