Dizendo isto, mestre Ouguet cubriu a cara com as mãos, e ficou outra vez immovel.

Elrei, os cavalleiros, os padres mais dignos, que estavam de roda do estrado real, os reis magos, os populares, todos olhavam pasmados para o architecto que assim interrompêra a solemnidade do auto. Um silencio profundo succedêra ao ruído, que a apparicào daquelle homem desvairado excitara. Milhares de olhos estavam fitos nesse vulto, que semelhava uma larva de condemnado saída das profundezas para turbar a festa religiosa. Por mais de um cérebro passou este pensamento: em mais de uma cabeça os cabellos se eriçaram de horror; mas dos que conheciam mestre Ouguet nenhum duvidou de que fosse elle em corpo e alma. Que proveito tiraria o demonio de tomar a figura do architecto para fazer uma das suas irreverentes diabruras? Só uma supposição havia, que não era inteiramente desarrazoada; David Ouguet podia estar possesso, em consequência de algum grave peccado; peccado que talvez tivesse escondido na ultima confissão, que fizera na vespera de Natal. Isto era possivel, e até natural; que não vivia elle a mais justificada vida. Suppôr que endoudecêra parecia grande desproposito; porque nenhum motivo havia para tal lhe acontecer, quando merecêra os gabos d'elrei e de todos, por ter levado a cabo a grandiosa obra que lhe estava encommendada. Estes e outros raciocinios, hoje ridículos, mas segundo as idéas daquella epocha hem fundados e correntes, fazia o reverendo padre procurador Fr. Joanne, que tinha vindo assistir ao auto, e estava em pé atraz do estrado, e perto de Fr. Lourenço Lamprêa. Revolvendo taes pensamentos, no meio daquelle silencio ancioso em que todos estavam, não pôde ter-se que, pé ante pé, se não chegasse ao prior, e lh'os communicasse em voz baixa, e ao ouvido.

"Não vou fóra disso:"—respondeu o prior, que, emquanto o outro frade lhe falára, estivera dando á cabeça em signal de approvação.—"O olhar espantado, o escumar, o estorcer os membros, o falar não sei de que feiticeiro; tudo me induz o crer que o demonio se chantou naquelle miseravel corpo, como vós aventaes. Se assim é, pouco juizo mostrou desta vez o diabo em vir com seus esgares e tropelias atalhar o mui devoto auto da adoração. Examinemos se assim é, eu vo-lo darei bem castigado."

Dizendo isto, Fr. Lourenço chegou-se a el-rei, e disse-lhe o que quer que foi. Elle escutou-o attentamente, e tanto que o prior acabou, sentou-se outra vez na sua cadeira de espaldas, e fez signal com a mão aos fidalgos e cavalleiros para que tambem se assentassem.

Fr. Lourenço, acompanhado de mais alguns frades, subiu pela igreja acima, e entrou na sacristia: todos ficaram esperando, silenciosos e immoveis como mestre Ouguet, o desfecho desta scena, que se encaixava no meio das scenas do auto.

Tinham passado obra de tres credos, quando, saindo outra vez da porta da sacristia, Fr. Lourenço voltou pela igreja abaixo, revestido com as vestes sacerdotaes, cbegou á têa, abriu-a, e encaminhou-se para mestre Ouguet. Depois, olhando de roda, e fazendo um aceno de aucloridade, disse:

"Ajoelhae, christãos, e orae ao Padre Eterno por este nosso irmão, tomado do espirito immundo."

A estas palavras, rei, cavalleiros, frades, povo, tudo se poz de joelhos. E ouvia-se ao longo das naves o sussurro das orações.

Só mestre Ouguet ficou sem se bulir com o rosto mettido entre as mãos.

O prior lançou a estola á roda do pescoço do possesso, e queria atar os tres nós do ritual; mas o paciente deu um estremeção, e tirando as mãos da cara, fez um gesto de horror, e gritou: