A abobada do capitulo, acabada havia vinte e quatro boras, tinha desabado em terra!

[1] Presepio, ou presepe, significa propriamente um estabulo, ou estrebaria; mas a accepção vulgar desta palavra é a de uma especie de embrechado, ou paizagem de vulto, representando a choça de Belém, em que nasceu o Salvador.

[2] O inquisidor Sprenger, no livro intitulado Mallens Maleficarum, recommenda aos exorcistas que antes de tudo descomponham e injuriem quanto poderem os possessos, advertindo que não são propriamente estes que recebem as affrontas, mas sim o diabo, que tem no corpo. A conveniencia de taes doestos é que para o demonio, pae da suberba, não póde haver maior pirraça do que ser descomposto na sua cara, sem que elle se possa desaggravar. Veja-se o livro citado, edição de Lyão de 1604—Tom. 3. pág. 83.

UM REI CAVALLEIRO.

Em uma quadra das que serviam de aposentos reaes no mosteiro da Batalha, á roda de um bufete de carvalho de lavor antigo, cujos pés, torneados em linha espiral, eram travados por uma especie de escabéllo, que pelos topos se embebia nelles, estavam assentadas varias personagens daquellas com quem o leitor já tractou nos antecedentes capitulos. Eram estas D. João I, Fr. Lourenço Lamprêa, e o procurador Fr. Joanne. Elrei estava á cabeceira da mesa, e no topo fronteiro o prior, tendo á sua esquerda Fr. Joanne. Além destes, outros individuos ahi estavam, que as pessoas lidas nas chronicas deste reino tambem conhecerão: taes eram os doutores João das Regras e Martim d'Ocem do conselho d'elrei, cavalleiros mui graves e auctorisados, e afóra elles mais alguns fidalgos, que D. João I particularmente estimava. Atraz da cadeira d'elrei um pagem esperava, em pé, as ordens de seu real senhor. O quadrante do terrado contiguo apontava meio-dia.

Em cima do bufete estava estendido um grande rolo de pergaminho, no qual todos os olhos dos circumstantes se fitavam: era a traça ou desenho do mosteiro, que delineára mestre Affonso Domingues, onde, além dos prospectos geraes do edificio, illuminados primorosamente, se viam todos os córtes e alçados de cada uma das partes dessa complicada e maravilhosa fabrica. Elrei tinha a mão estendida, e os dedos sobre o risco da casa capitular, ao passo que falava com o prior:

"Parece impossivel isso; porque natural desejo é de todos os homens alcançarem repouso e pão na velhice, e não vejo razão para mestre Affonso se doer da mercê que lhe fiz."

"Pois a conversação que vos relatei, tive-a com elle ainda hontem, pouco antes de vossa mercê chegar."

"E como vae David Ouguet?—perguntou elrei.

"Com grande melhoria:—respondeu o prior.—Dormiu bom espaço, e acordou em seu juizo. Contou-me que, entrando hontem após nós na casa do capitulo, e affirmando a vista na abobada, conhecêra que tinha gemido, e estava a ponto de desabar; que sentíra apertar-se-lhe o coração, e que com a sua afflicção corrêra pela crasta fóra como doudo; que no céu se lhe affigurava um relampaguear incessante e medonho; que via … nem elle sabe o que via, o pobre homem. Depois disso, diz que perdêra o tino, e de nada mais se recorda."