"Nem dos exorcismos?—perguntou em meia voz Martim d'Ocem, com um sorriso malicioso.

"Nem dos exorcismos:—retrucou Fr. Lourenço no mesmo tom, mas subindo-lhe ao rosto a vermelhidão da colera.—A proposito, doutor. Dizem-me que Annequim é morto[1], e que elrei proveu o cargo em um dos de seu conselho. Seria verdadeira esta mercê singular?"

E o frade media o letrado de alto a baixo com os olhos irritados. Este preparava-se para vibrar ao prior uma nova injuria indirecta, naquelle jogo de allusões que era as delicias do tempo, quando elrei acenou ao pagem, dizendo-lhe:

"Alvaro Vaz d'Almada, ide depressa á morada d'Affonso Domingues, dizei-lhe que eu quero falar-lhe, e guiae-o para aqui. Fazei isso com tento; e lembrae-vos de que elle é um antigo cavalleiro, que militou com vosso mui esforçado pae."

O pagem saíu a cumprir o mandado d'elrei.

"Dizeis vós—proseguiu este, dirigindo-se a João das Regras e a Martim d'Ocem—que talvez Affonso Domingues se enganasse em suppôr que era possivel fazer uma abobada tão pouco erguida, como é a que elle traçou para o capitulo. Não creio eu que tão entendido architecto assim se enganasse: mais inclinado estou a persuadir-me de que o lastimoso successo de hontem á noite procedesse da grave falta commettida por mestre Ouguet nesta edificação."

"E que falta foi essa, se a vossa mercê apraz dizer-m'o?—replicou
João das Regras.

"A de não seguir de todo ponto o desenho de mestre Affonso:—tornou elrei.

"E se a execução de sua traça fosse impossivel?—acudiu o doutor.

"Impossivel!?"—atalhou elrei.—"E não contava elle com leva-la a effeito, se Deus o não tolhesse dos olhos?"