"E é disso que mais se doe mestre Affonso,"—interrompeu o prior.—"A sua grande canseira é que ninguem saberá continuar a edificação do mosteiro, ou, como elle diz, proseguir a escriptura do seu livro de pedra, porque ninguem é capaz de entender o pensamento que o dirigiu na concepção delle."
"Roncarías e feros são esses proprios de quem foi homem d'armas de Nunalvares:—disse o chanceller João das Regras.—Todos os de sua bandeira são como elle. Porque sabem jogar boas lançadas, teem-se em conta de principes dos discretos; e o cégo não se esqueceu ainda de que comeu da caldeira do condestavel."
João das Regras, emulo de Nunalvares, não perdeu este ensejo de lhe pôr pêcha; mas D. João I que conhecia serem esses dous homens as pedras angulares de seu throno, escutava-os sempre com respeito, salvo quando falavam um do outro; posto que o condestavel, homem mais de obras que de palavras, raras vezes menoscabava os meritos do chanceller, contentando-se com lançar na balança, em que João das Regras mostrava o grande peso da sua penna, o montante com que elle Nunalvares tinha em cem combates salvado a patria do dominio estranho, e a cabeça do chanceller das mãos do carrasco, de que não o livrariam nem os gráus de doutor de Bolonha, nem os textos das leis romanas.
"Deixae lá o condestavel, que não vem ao intento;—disse elrei:—o que me importa é ouvir mestre Affonso sobre este caso. Quizera antes perder um recontro com castelhanos, do que cuidar que o capitulo de Sancta Maria da Victoria ficará em ruinas. Mestre Ouguet com sua arte deixou-lhe vir ao chão a abobada: se Affonso Domingues fôr capaz de a tornar a erguer, e deixa-la firme, concluirei d'ahi que vale mais o cégo que o limpo de vista; e digo-vos que o restituirei ao antigo cargo, ainda que esteja, além de cégo, çopo[2] e mouco."
Neste momento entrava o velho architecto, agarrado ao braço de Alvaro Vaz d'Almada, que o veiu guiando para o topo da desmesurada banca de carvalho, á roda da qual se travára o dialogo, que acima transcrevemos.
"Dom donzel, onde é que está elrei?"—dizia Affonso Domingues ao pagem, caminhando com passos incertos ao longo do vasto aposento.
D. João I, que ouvira a pergunta, respondeu em vez do pagem:
"Agora nenhum rei está aqui, mas sim o Mestre d'Aviz, o vosso antigo capitão, nobre cavalleiro de Aljubarrota."
"Beijo-vos as mãos, senhor rei, por vos lembrardes ainda de um velho homem de armas, que para nada presta hoje. Vêde o que de mim mandaes; porque de vossa ordem aqui me trouxe este bom donzel."
"Queria vêr-vos e falar-vos; que de coração vos estimo, honrado e sabedor architecto do mosteiro de Sancta Maria."