"Dos pés até á cabeça; por dentro e por fóra; que não ha que dizer mais nada."

E meu pae, a primeira vez na sua vida, chorava pelas barbas abaixo.

O bom do abbade amimou-o como a uma creança, consolou-o como a um malaventurado. Depois poz-se a contar a historia da dama das penhas, que é minha mãe … Deus me salve!

E deu-lhe por penitencia ir guerrear os perros sarracenos por tantos annos quantos vivêra em peccado, matando tantos delles quantos dias nesses annos tinham corrido. Na conta não entravam as sextas-feiras, dia da paixão de Christo, em que seria irreverência trosquiar a vil relé de agarenos, cousa neste mundo mui indecente e escusada.

Ora a historia da formosa dama das serras, de verbo ad verbum como estava na folha branca do sanctoral, resava assim, segundo lembranças do abbade.

3

No tempo dos reis godos—bom tempo era esse!—havia em Biscaia um conde, senhor de um castello posto em montanha fragosa, cercado pelas encostas e quebradas de larguissimo soveral. No soveral havia todo o genero de caça, e Argimiro o Negro (assim se chamava o rico-homem) gostava, como todos os nobres barões de Hespanha, principalmente de tres cousas boas; da guerra, do vinho e das damas; mas ainda mais do que de tudo isso, gostava de montear.

Dama, possuia-a formosa, que era linda a condessa; vinho, não havia melhor adega que a sua; caça, era cousa que na selva não faltava.

Seu pae, que fôra caçador e fragueiro, quando estava para morrer, chamou-o e disse-lhe:—"Has-de jurar-me uma cousa que não te custará nada."

Argimiro jurou que faria o que seu pae e senhor lhe ordenasse.