Havia muitos annos que meu senhor pae se não confessava: alguns havia tambem que estava viuvo sem ter enviuvado.

Certo domingo pela manhan nasceu o dia, alegre como se fôra de paschoa; e meu senhor D. Diogo acordou carrancudo e triste como costumava.

Os sinos do mosteiro, lá em baixo no valle, tangiam tão lindamente que era um céu aberto. Elle poz-se a ouvi-los, e sentiu uma saudade que o fez chorar.

"Irei ter com o abbade:"—disse elle lá comsigo:—"quero-me confessar.
Quem sabe se esta tristura ainda é tentação de Satanás?"

O abbade era um velhinho, sancto, sancto, que não o havia mais.

Foi a elle que se confessou meu pae. Depois de dizer mea culpa, contou-lhe ponto por ponto a historia do seu noivado.

"Ui! filho,"—bradou o frade—"fizeste maridança com uma alma penada!"

"Alma penada, não sei:"—tornou D. Diogo;—"mas era cousa do diabo."

"Era alma em pena: digo-t'o eu, filho:"—replicou o abbade.—"Sei a historia dessa mulher das serras. Está escripta ha mais de cem annos na ultima folha de um sanctoral godo do nosso mosteiro. Desmaios que te vem ao coração pouco me espantam. Mais que ancias e desmaios costumam roer lá por dentro os pobres excommungados."

"Então estou eu excommungado?"