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No solar do conde Argimiro, um anno depois da sua partida, ainda tudo dava mostras da magua e saudade da condessa: as salas estavam forradas de negro; de negro eram os trajos della; nos pateos interiores dos paços crescêra a herva, de modo que se podia ceifar: as reixas e as gelosias das janellas não se haviam tornado a abrir: descantes dos servos e servas, sons de psalterios e harpas tinham deixado de soar.

Mas ao cabo do segundo anno tudo apparecia mudado: as colgaduras eram de prata e matiz; brancos e vermelhos os trajos da bella condessa; pelas janellas do paço restrugia o ruído da musica e dos saraus; e o solar de Argimiro estava por dentro e por fóra alindado.

Um antigo villico do nobre conde fôra quem destas mudanças o avisára. Doíam-lhe tantos folgares e contentamentos; doía-lhe a honra de seu senhor, pelo que elle via e pelo que se murmurava.

Eis-aqui como se passára o caso:

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Longe do condado do illustre barão Argimiro o Negro, para as bandas de Galliza, vivia um nobre gardingo—como quem dissesse infanção—gentil homem e mancebo, chamado Astrigildo o Alvo.

Contava vinte e cinco annos; os sonhos das suas noites eram de formosas damas; eram de amores e deleites; mas ao romper da manhan todos elles se desfaziam, que ao saír ao campo não via senão pastoras tostadas do sol e das neves, e as servas grosseiras do seu solar.

Destas estava elle farto. Mais de cinco tinha enganado com palavras; mais de dez comprado com ouro; mais de outras dez, como nobre e senhor que era, brutamente violado.

Com vinte e cinco annos, já no livro da justiça divina se lhe haviam escripto mais de vinte e cinco grandes maldades.