Uma noite sonhou Astrigildo que corria serras e valles com a rapidez do vento, montado em onagro silvestre, e que, depois de correr muito, chegava alta noite a um solar, onde pedia agasalho:

E que formosa dama o recebia, e que em poucos instantes um do outro se enamorava.

Acordou sobresaltado; e durante o dia inteiro não pensou em outra cousa senão na formosa dama que víra nos sonhos da madrugada.

Tres noites se repetia o sonho: tres dias o mancebo scismava. Encostado á varanda de um eirado, na tarde do terceiro dia, olhava triste para as montanhas do norte, que via lá no horisonte como nuvens pardacentas. O sol começou a descer no poente, e ainda elle estava embebido em seu melancholico scismar.

Por acaso volveu então os olhos para o terreiro que lhe ficava por baixo: um onagro da floresta estava ahi deitado como se fosse manso jumento: era inteiramente semelhante áquelle com que havia sonhado.

Sonhos de tres noites a fio não mentem: Astrigildo desceu á pressa ao terreiro: o onagro quieto deixou-se enfrear e selar; e a Deus e á ventura, o mancebo cavalgou nelle e deitou pela encosta abaixo.

Cumpria-se tudo á risca: o onagro não corria, voava.

Mas o ceu começou de toldar-se com o anoitecer: a escuridão cresceu e desfechou em vento, trovões, chuva e raios. O mancebo começava a perder o tino, e o onagro dobrava a carreira, e bufava violentamente. Parou, emfim, a horas mortas. Sem saber como, Astrigildo achou-se junto das barreiras de um solar acastellado.

Tocou a sua buzina, que deu um som prolongado e trémulo, porque elle tremia de susto e de frio. Apenas cessou de tocar, a ponte levadiça desceu, muitos escudeiros saíram a recebe-lo entre tochas, e as salas dos paços illuminaram-se.

Era que tambem a condessa tinha por tres noites sonhado!