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8
A clepsidra marca a hora de sexta nocturna, e ainda dura o sarau no solar do conde de Biscaia; porque a nobre condessa e o gentil Astrigildo assistem ás danças e jogos dos libertos e servos, que para elles espairecerem folgam lá na sala d'armas. Mas n'um aposento baixo do solar um homem está em pé com um punhal na mão, olhar furibundo, e o cabello eriçado, parecendo escutar longinqua toada.
Outro homem está diante delle dizendo-lhe:—Senhor, ainda não é tempo para punir o grande peccado. Quando elles se recolherem, aquella luz que vêdes acolá ha-de apagar-se: subi então, e achareis desempedido o caminho secreto para a camara, que é a mesma do vosso noivado."
E o que falava saiu, e d'ahi a pouco a luz apagou-se, e o homem dos cabellos hirtos e do olhar esgazeado subiu por uma ingreme e tenebrosa escada.
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9
Quando pela manhan cedo o conde Argimiro do seu balcão principal ordenava que levassem o corpo da condessa a um mosteiro de Donas, que elle fundára para ahi ter seu moimento, elle e os de sua casa, e dizia aos homens de armas que arrastassem o cadaver de Astrigildo, e o despenhassem de um grande barrocal abaixo, viu um onagro silvestre deitado a um canto do pateo.
"Um onagro assim manso é cousa que nunca vi:—disse elle ao villico, que estava alli ao pé.—Como veio aqui este onagro?"
O villico ía a responder, quando se ouviu uma voz: dir-se-hia que era o ar que falava.