O cavalleiro não pôde dizer mais palavra.
"Inigo!—proseguiu ella—falta um anno para cumprir-se o captiveiro do nobre senhor de Biscaia. Um anno passa depressa: mais depressa eu t'o farei passar. Vês tu aquelle valente onagro? Quando uma noite acordando o achares ao pé de ti, manso como um cordeiro, cavalga nelle sem susto, que te levará a Toledo, onde livrarás teu pae.—E bradando accrescentou:—Estás por isto, Pardalo?"
O onagro fitou as orelhas, e em signal de approvação começou a azurrar; começou por onde ás vezes academias acabam.[2]
Depois a dama poz-se a cantar uma cantiga de bruxas, acompanhando-se de um psalterio, de que tirava mui estranhas toadas:
Pelo cabo da vassoura,
Pela corda da polé,
Pela vibora que vê,
Pela Sura e pela Toura.
Pela vara do condão,
Pelo panno da peneira,
Pela velha feiticeira,
Do finado pela mão,
Pelo bode rei da festa,
Pelo capo inteiriçado,
Pelo infante dessangrado
Que a bruxa chupou á sésta;
Pelo craneo alvo e lustroso
Em que sangue se libou,
E do irmão, que irmão matou,
Pelo arranco doloroso;
Pelo nome de mysterio
Que em palavras se não diz
Vinde já precitos vis;
Vinde ouvir o meu psalterio!
E dançae-me aqui na terra
Uma dança doudejante,
Que entonteça n'um instante
O meu filho Inigo Guerra.