Era primeiro um pontinho; depois crescêra e crescêra: quando anoiteceu estava já perto e cubria um grande espaço.

O almuhaden, subindo á torre da mesquita, chamava os crentes de
Malamede para a oração da tarde.

Mas com a sua voz esganiçada misturou-se o estourar dos trovões: era como um tiple e um baixo.

E passou um tufão de vento, que embrenhando-se e remoinhando nas barbas longas e brancas do almuhaden, lhe fustigou com ellas a cara.

Começou então a cahir uma corda de chuva, que nem moços nem velhos se lembravam de ter visto cousa semelhante em nenhuma parte.

Aqui verieis os esculcas a aninharem-se nas guaritas das torres; os roldas e sobre-roldas a fugirem pelos adarves; os facheiros a sumirem-se debaixo das almenaras: os hadjis a acolherem-se ás mesquitas molhados até os ossos; as velhas, que tinham saído ao vozear do almuhaden, levadas pelas torrentes das ruas tortuosas e estreitas, bradando por Mafoma e por Allah. E a agua cahindo cada vez mais!

Dous unicos movimentos fazem então os moradores de Toledo: uns fogem, outros agacham-se. E a agua cahindo cada vez mais!

O pavor quebra todos os animos: os cacizes esconjuram a procella: os faquires penitentes gritam que se acaba o mundo, e que lhes deixe os seus haveres aquelle que quizer salvar-se. E a agua cahindo cada vez mais!

A salvação de Toledo foi não se terem fechado suas portas: se assim não succedesse, dentro do recincto dos muros morria toda a mourisma affogada.

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