Na prisão estava D. Diogo encostado ás grades de ferro. O pobre velho entretinha-se a ouvir aquelle medonho chover; porque a noite era comprida, e elle não tinha que fazer mais nada.
Mas como o terreiro ante a sua gaiola de feras era rodeado de muros, a chuva não podia escoar-se toda, e vinha crescendo de modo que já elle sentia os pés molhados.
E tambem começou a ter medo de morrer, apesar da sua miseria. Bem sabia D. Diogo que a morte é a maior dellas todas; que não era o senhor de Biscaia atheu, philosopho, nem parvo.
Mas lá divisa um vulto alvacento, que saltou por cima do palanque; e sente ao mesmo tempo no meio do terreiro—plash!—
E ouviu uma voz que dizia:—Nobre senhor D. Diogo, onde é que vós vos achaes!"—
"Que vejo e ouço?!—exclamou o velho.—Um trajo que não alveja, não é trajo d'ismaelita; uma voz que não fala algaravia, não é d'infiel; um salto de tal altura não é de cavalleiro do mundo. Por vossa fé dizei-me, sois anjo, ou sois Sanctiago?"
"Meu pae, meu pae!—acudiu o cavalleiro—já não conheceis a fala de Inigo? Sou eu que venho salvar-vos."
E D. Inigo descavalgou, e travando das grossas reixas tentava allui-las: a agua dava-lhe já pelos artelhos, e elle não fazia nada.
Cheio de afflicção o mancebo quiz invocar o nome de Jesus; mas lembrou-se de como alli viera, e o bento nome expirou-lhe nos labios.
Todavia Pardalo pareceu adivinhar o seu intimo pensamento; porque soltou um gemido agudo e prompto, como se o houvessem tocado com um ferro em braza.