"Sou de tão alta linhagem como tu; porque venho do semel de reis, como tu, senhor de Biscaia."

"Se já sabeis quem eu seja, offereço-vos a minha mão, e com ella as minhas terras e vassallos."

"Guarda as tuas terras, D. Diogo Lopes, que poucas são para seguires tuas montarias; para o desporto e folgança de bom cavalleiro que és. Guarda os teus vassallos, senhor de Biscaia, que poucos são elles para te baterem a caça."

"Que dote, pois, gentil dama, vos posso eu offerecer digno de vós e de mim; que se a vossa belleza é divina, eu sou em toda a Hespanha o rico homem mais abastado?"

"Rico-homem, rico-homem, o que eu te acceitára em arrhas cousa é de pouca valia; mas apesar d'isso não creio que m'o concedas; porque é um legado de tua mãe, a rica-dona de Biscaia."

"E se eu te amasse mais que a minha mãe, porque não te cederia qualquer dos seus muitos legados?"

"Então se queres ver-me sempre ao pé de ti não jures que farás o que dizes, mas dá-me d'isso a tua palavra."

"A la fé de cavalleiro, não darei uma, darei milhentas palavras."

"Pois sabe que para eu ser tua é preciso esqueceres-te de uma cousa que a boa rica-dona te ensinava em pequenino, e que estando para morrer ainda te recordava."

"De quê, de quê, donzella?"—acudiu o cavalleiro com os olhos faiscantes.—"De nunca dar treguas á mourisma, nem perdoar aos cães de Mafamede? Sou bom christão. Guai de ti e de mim se és dessa raça damnada!"