"Não é isso, dom cavalleiro,"—interrompeu a donzella a rir.—"O de que eu quero que te esqueças é do signal da cruz: o que eu quero que me promettas é que nunca mais has-de persignar-te."
"Isso é outra cousa:"—replicou D. Diogo, que nos folgares e devassidões perdêra o caminho do céu. E poz-se um pouco a scismar.
E scismando dizia comsigo:—"De que servem benzeduras? Matarei mais duzentos mouros e darei uma herdade a Sanctiago. Ella por ella. Um presente ao apostolo e duzentas cabeças de agarenos valem bem um grosso peccado."
E erguendo os olhos para a dama, que sorria com ternura, exclamou:—"Seja assim: está dicto. Vá, com seiscentos diabos."
E levando a bella dama nos braços, cavalgou na mula em que viera montado.
Só quando á noite no seu castello pôde considerar miudamente as fórmas nuas da airosa dama, notou que tinha os pés forcados como os de cabra.
3
Dirá agora alguem:—"Era por certo o demonio que entrou em casa de D. Diogo Lopes. O que lá não iria!"—Pois sabei que não ía nada.
Por annos a dama e o cavalleiro viveram em boa paz e união. Dous argumentos vivos havia d'isso: D. Inigo Guerra e D. Sol, enlevo ambos de seu pae.
Um dia pela tarde D. Diogo voltou de montear: trazia um javali grande, muito grande. A mesa estava posta. Mandou conduzi-lo á casa onde comia, para se regalar de ver a excellente prêa que havia preado.