Não subiram bem um monte, já descem pelo outro recosto abaixo; ainda bem não chegaram a uma clareira, já sentem em profunda floresta gotejarem-lhes em cima os ramos agitados das arvores.

Pouco mais é de meia-noite, e os topos nevados do Vindio recortam o chão estrellado do céu já limpo, semelhantes aos dentes de uma serra gigante capaz de dividir cêrceo o hemispherio austral do hemispherio boreal.

E Pardalo investe sempre em galope desfeito com as montanhas disformes, e desce aos valles temerosos, e cada vez mais ligeiro, como o seu nome o indica, parece menos quadrupede que passaro.

Mas que ruido é esse que sobreleva ao do vento? Que é isso que, lá ao longe, ora alveja ora reluz nas trevas, como uma alcateia de lobos involtos em sudarios brancos, com os olhos só descobertos, e despregando em fio pelo fundo do valle abaixo?

É um rio caudal e furioso, com o seu manto de escuma, e com as escamas angulosas de seu dorso eriçado, onde batem e chispam os raios das estrellas em mil reflexos quebrados.

Negreja sobre o rio uma ponte, ao meio desta um vulto esguio.—"Será um marco, uma estatua?"—pensaram os cavalleiros. Pinheiro não póde ser: não consta que em taes sitios nasçam.

Pardalo ria-se de rios; pontes, fazia tanto cabedal dellas como de um retraço de palha. Todavia, bem que podesse de um pulo salvar vinte ribeiras como aquella, foi-se direito á ponte; porque não era animal que fizesse africas escusadas.

Semelhante a relampago se arrojou o onagro áquelle passo estreito…
Mas, tá!… Ei-lo que de repente pára.

E tremia como varas verdes, e arquejava com violencia: os dous cavalleiros olharam.

O vulto esguio era um cruzeiro de pedra alevantado a meia ponte: por isso Pardalo emperrava.