Então d'entre uns altos choupos, que da margem d'além se meneavam, um pouco mais abaixo daquelle sitio, ouviu-se uma voz fadigosa e trémula que cantava:

Para traz, para traz, a galgar.
Já!
De redor, de redor vem passar
Cá!
Que não ha nada aqui que te empeça!
Buz,
Nem palavra, vós dous! Fugi dessa
Cruz!

"Sancto nome de Christo!"—exclamou D. Diogo benzendo-se ao escutar aquella voz que bem conhecia, mas que depois de tantos annos não esperava alli ouvir, porque seu filho não lhe dissera que meio achára para o salvar.

Apenas o grito do velho soou, assim elle como D. Inigo foram bater contra o poyal do cruzeiro, onde ficaram de bruços, involtos em lodo. O onagro ao sacudi-los de si soltára um rugido de besta-fera. Sentiram então um cheiro intoleravel de enxofre e de carvão de pedra inglez, que logo se percebia ser cousa de Satanaz.

E ouviram como um trovão subterraneo; e a ponte balançava como se as entranhas da terra se despedaçassem.

Apesar do seu grande terror, e de clamar pela Virgem Santissima,
D. Inigo abriu um cantinho do olho para vêr o que se passava.

Nós os homens costumâmos dizer que as mulheres são curiosas. Nós é que o somos. Mentimos como uns desalmados.

Que veria o cavalleiro? Um fojo aberto bem proximo delle sobre a ponte, e que depois rompia pela agua.

E depois pelo leito do rio; e depois pela terra dentro, dentro; e depois pelo tecto do inferno, que outra cousa não podia ser um fogo muito vermelho que reverberava daquella profundidade.

Tanto era assim, que ainda lá viu passar de relance um demonio com um desconforme espeto nas mãos em que levava um judeu empalado.