Se nos dias, desgraçadamente mui communs, das máguas extremas só o catholicismo tem conforto para o homem rude, nos de contentamento só o catholicismo tem festas que convertam para a gratidão e para Deus o seu goso interior, que tende a trasbordar em risos e folgares. O simples repouso do domingo, para o que, condemnado a lavor indefesso durante a semana inteira, compra á custa de suor e cansaço um pouco de pão duro e grosseiro, é uma alegria semelhante á do preso, que, adormecendo em ferros, despertasse livre. Aquelle coração precisa de dilatar-se, aquelles sentidos de recrearem-se, aquelle espirito murcho e triste de se tornar viçoso, de desabrochar de novo ao sol da vida, ao menos n'alguns desses dias reservados ao descanço. É então que o catholicismo lhe offerece as pompas das suas solemnidades; o templo illuminado, os canticos dos sacerdotes, as harmonias do orgão, o espectaculo brilhante das vestes sacerdotaes e dos adornos do altar, os ramilhetes povoando os degraus do sanctuario, ou juncando o pavimento, o incenso embalsamando a atmosphera. E como tudo isto é para as multidões, o culto trasborda do estreito recincto e derrama-se pelas ruas, pelas praças, pelos campos em procissões, em cirios, em romarias, e o povo fluctua, folga, resa, tripudia, esquece-se dos seus destinos de miseria e trabalho, ama a religião que o consola, e voltando ás suas habituaes fadigas, leva para o meio dellas a saudade do dia-sancto e as recordações affectuosas da igreja.
E o protestantismo? O protestantismo despedaçou os vultos dos sanctos, prohihiu os oragos, as procissões e as romagens: esfarrapou alvas, casulas, amictos, pluviaes; apagou as luzes; varreu as flores; assoprou o incenso. Fechou-se na celebração do domingo; e fez bem! bem ao povo, a quem para tedio e tristeza, nos paizes protestantes, sobeja o domingo. E porque fez elle isto? Foi porque essas cousas eram superstições papistas: as imagens idolatria, a agua benta agua lustral, as vestes sacerdotaes indecencias ridiculas, as ceremonias visagens, a missa mentira. Passagens de biblia e compridos sermões ficaram bastando ao culto externo, e se alguma cousa deixaram ainda a este, poetica e attractiva, foi o canto dos psalmos e as harmonias do orgão; porque, como todos sabem, nas agapas dos christãos primitivos cantavam-se os psalmos ao som do orgão!! Os protestantes são indubitavelmente antiquarios eruditos, mas, sobretudo, logicos.
Qual foi o resultado desta reformação insensata de instituições antigas e venerandas? Foi que o culto se tornou n'um habito machinal, n'uma acção que se practíca na impossibilidade de se practicar outra. A policia vigia sobre isso. Deixe ella ao domingo abrir as lojas, os passeios, os estabelecimentos publicos, os espectaculos, as fabricas e as officinas; deixe correr nas veias do corpo social o sangue comprimido, e os templos dos districtos d'Inglaterra mais fervorosos no protestantismo ficarão tão ermos como as igrejas da Irlanda, onde o reitor préga ao sacrista o suado sermão, que ha-de um dia, impresso, allumiar o mundo, emquanto o seu recalcitrante rebanho, á porta do presbyterio solitario, ouve ajoelhado na rua a missa que em altar portatil lhe diz o pobre clerigo catholico, verdadeiro e legitimo pastor, a quem incumbe o consola-los, bem como ao parocho protestante pertence… o que? Fazer predicas ás paredes, e comer os dizimos, sacramento, que, de certo, o puritanismo protestante achou n'algum alfarrabio velho ter sido instituido por Christo!
Temos ouvido lamentar ás pessoas de boa fé excessiva, destas que estudam as nações nas apparencias, e não na vida intima, que o catholicismo não tome entre nós a severidade e decencia exterior do culto anglicano; que o dia consagrado ao Senhor não seja guardado pontualmente; que as nossas igrejas não offereçam na celebração dos officios divinos a gravidade, o silencio, a ordem, o aceio de um templo protestante, nas horas destinadas á oração. No estado actual das sociedades, em que o fervor dos primeiros tempos christãos tem esfriado, em que, tanto entre catholicos como entre protestantes, a religião deixou de ser o primeiro, ou, ao menos, o exclusivo negocio dos homens, o que elles desejam seria impossivel, e se absolutamente um bem, relativamente um grande mal; porque as causas que facilitam esse estado de cousas em Inglaterra são a prova mais clara da morte, se não de uma certa religião vaga, em que os espiritos mais cultivados se alevantam até ao pé do throno de Deus, ao menos da religião positiva, practica, definida, morta e enterrada ha muito na mina de carvão de pedra chamada Gran-Bretanha.
Já dissemos que não é tanto o sentimento religioso que guarda em Inglaterra a decencia do culto, como a admiravel policia ingleza. Quem não o sabe? Quem ignora que naquelle paiz a religião tem a natureza de outra qualquer formula material da sociedade; que é uma cousa como o regimento, a nau de guerra, o workhouse? Ao christão um vigario, uma biblia, e a cadeia se perturbar o officio divino; ao soldado um coronel, uma espingarda, e uns açoutes se mecher a cabeça na fórma; ao marinheiro um commodóro, um posto juncto da amurada, e um mergulho por baixo da quilha se offender a disciplina; ao miseravel que vae cahir no workhouse um director implacavel, uma atafona, e ração curta para aprender a deixar-se estalar á mingua sem pedir esmola. A cada instituição suas condições, sua sancção penal, seus destinos: o regimento serve para provar aos chartistas que a melhor organisação politica possivel é a que faz morrer annualmente milhares de obreiros de fadiga, de fome, e de febres putridas sobre uma pouca de palha fetida e humida, no fundo de subterraneos; a nau serve para civilisar a India pelas contribuições, e moralisar a China pelo opio; o workhouse serve para curar radicalmente os que não têm nem pão nem camisa, do vicio infame da mendicidade; emfim a igreja dominante (established church) serve para sustentar de dizimos muitas familias honradas com as modestas e reformadas prebendas anglicanas, entre as quaes nenhuma excede a vinte mil libras esterlinas per annum, ou, em moeda portugueza, a obra de uns mesquinhos duzentos mil cruzados.
O templo catholico é commummente o symbolo da completa igualdade: lá não ha distincções, senão para os ministros do culto; e quando o orgulho humano, que forceja sempre por invadir ainda as cousas mais sagradas, vae ahi profanamente estender o tapete aristocratico, e collocar sentinellas, o povo murmura, e murmura em voz alta; porque sabe que na sociedade christan só ha um Grande e Poderoso, que é Deus. Os nossos habitos, as nossas idéas são que o mais commodo, o mais distincto logar no templo pertence ao que primeiro o occupou. O catholicismo entendeu que diante da magestade do Creador os vermes cobertos de brocado não o são menos que os vermes cobertos de farrapos. Assim o vulgo dos fiéis precipita-se como torrente através dos umbraes da igreja; estrepita nas lageas do pavimento com os seus sapatos ferrados; roça com o burel grosseiro as finas sedas dos nobres e abastados; afasta com as mãos callosas os grupos alindados dos peralvilhos; esquece-se, emfim, dos respeitos humanos, que se guardam, e devem guardar, cá fóra. Como, pois, obter a ordem, as attenções, o silencio? O nosso povo é rude e mal educado (não o gabâmos por isso; mas o vulgacho inglez leva-lhe, em bruteza, incomparavel vantagem); o nosso povo conserva dentro do templo os habitos ruidosos, inquietos, grosseiros da praça publica. E poderia elle despi-los de subito ao entrar na casa de Deus? Prova acaso o borborinho, que ahi sôa, desprezo pela religião? Examinae os que parecem estar com menos respeito e decencia; os que falam e se agitam: são aquelles entre os quaes o christianismo iria achar os seus martyres, se viessem de novo os tempos em que a crença do Crucificado precisava de ser revalidada pelo sangue dos seguidores da cruz. Que esses pobres tontos, que nos motejam sem nos conhecerem, venham estudar o catholicismo portuguez, se d'isso são capazes, e saberão se nós falâmos verdade.
Nestas consequencias, tão logicas, tão rigorosas do caracter primitivo da religião christan, e do estado das classes inferiores da sociedade, poz cobro a igreja anglicana. É verdade que Jesu-Christo, segundo o Evangelho, na traducção vulgata, chamou principalmente os pobres e humildes; e se no templo ha quem valha mais que outrem, não são por certo aquelles que o Filho de Deus achava mais anchos para entrarem no reino dos céus, do que um camello para entrar no fundo de uma agulha. A igreja reformada entendeu provavelmente que outra era a interpretação do Evangelho; porque é corrente que os catholicos nunca souberam grego, desde S. Jeronymo até Angelo Policiano, ou Ayres Barbosa, para o poderem interpretar bem. Assim, em Inglaterra, aquellas tão formosas e vastas cathedraes da idade média, a que só falta um culto poetico e consolador para serem sublimes, repartiram-se em camarotes de theatro, fechados á chave, e alguns até com todos os requisitos desse comfort, que só os inglezes conhecem bem. As jerarchias do dinheiro e do sangue estão lá rigorosamente guardadas: pelo logar dos stallos, e pelo seu luxo, os espiritos habituados á topographia da Church podem orçar o numero d'avós ou os milhares de libras que possue cada filho da igreja anglicana: o commum dos villãos, empurrados para ao pé da porta, lá perdem em parte os deliciosos periodos do sermão do reitor, encarregado de acalentar… queremos dizer de conservar puros na fé averiguada e decretada pela grande theologa chamada a rainha Isabel, os seus dizimados freguezes.
E o vulgo? Os homens do trabalho, da fome, dos farrapos? Os tres quartos da população ingleza? Esses? Esses lá têm o templo da esperança e do consolo: lá tem o gin's palace (palacio da genebra), a taberna. Na sua incrivel miseria, os homens que não podem encontrar Deus, porque a igreja anglicana lh'o collocou n'uma atmosphera nebulosa, onde o não descortinam; porque o templo os repelle; porque o priest com seu aristocratico, polido e perfumado sermão, não póde substituir a entidade exclusivamente catholica chamada o missionario, sublime de persuasão, de energia e de virgem rudeza; os miseraveis, dizemos, atiram-se desorientados aos braços da embriaguez, porque a embriaguez tem o esquecimento, tem a sua horrivel alegria. Lá, no gin's shop, estendendo o braço cadaverico e vacillante para a destruidora bebida, sorvendo-a com phrenesi, essa especie de brutos com fórma humana resumem no seu aspecto e meneios, e na decadencia de todos os sentimentos de pudor, as ultimas consequencias moraes do protestantismo.
Que nos seja permittido citar as proprias palavras de um escriptor moderno[2], que, melhor talvez que ninguem, pintou o estado presente das ultimas classes em Inglaterra, e que em todos os factos que narra se funda ou nas proprias observações, ou nos documentos officiaes publicados pelo governo inglez. Perfeitamente imparcial a respeito da Gran-Bretanha, o seu testemunho é o que mais a proposito podemos neste ponto invocar.
"A seriedade e o silencio com que este licôr ardente (a genebra) é tragado, fazem arripiar. É como se o povo assistisse a um officio divino. Consummado o sacrificio, vão-se assentando no banco de madeira corrido em frente do balcão, e alli ficam quedos, mudos, como arrebatados em ineffavel extasi. Depois, passados alguns minutos, voltam ao balcão, tornam a beber, e repetem até se lhes acabar o dinheiro. Vae-se assim a ultima mealha. E têm animo de affrontarem o morrer de fome, elles e seus filhos, para se embriagarem. Provou-se pelos inqueritos feitos por causa da lei dos pobres, que as esmolas em dinheiro, dadas pelas parochias, íam cahir inteiras na taberna, e só aproveitavam ao taberneiro. A povoação infima da Inglaterra está de tal modo atolada no seu lodaçal, que não ha ahi caridade que possa desempega-la."