"Sabem todos quão rigoroso preceito ecclesiastico e civil é o guardar o domingo em Inglaterra. A unica excepção da regra é a taberna. Lojas, tudo fechado; logares de honesto ou instructivo recreio, como hortos botanicos e museus, o mesmo. Só o gin's shop se abrirá de par em par a quem empurrar a porta com o pé. O caso está em que pareça cerrada: duas meias portas solidas, que se fechem por si, fazem a festa: janellas fechadas: dentro lusco-fusco, como em sanctuario, e até sua luz de gaz. Tomadas estas cautelas, plena licença, licença auctorisada para se venderem bebidas todo o dia sem lhe faltar hora. E é neste paiz que os caminhos de ferro estão devolutos por todo o tempo do officio divino, em honra do domingo! Emquanto, em Manchester, eu me espantava das largas que se davam ás tabernas, apresentava-se á camara dos Lords um bill para prohibir o transporte das mercadorias pelos canaes no sagrado dia do domingo! Nesta cidade de Manchester ha jardins zoologicos e botanicos, que o povo frequenta gostoso; mas não se obtem da pontualidade anglicana que estejam patentes no dia sancto; e os bispos, tão escrupulosos no mais, são indifferentes pelo que toca aos gin's shops, abertos publicamente e frequentados ao domingo. Não é singular que a cousa unica permittida ao povo seja o embriagar-se?"
Não!—diriamos nós ao auctor do excellente livro que havemos citado.—O governo e a igreja da Gran-Bretanha sabem que entre a horrivel miseria das classes laboriosas, a embriaguez e o suicidio não ha uma quarta cousa para suavisar a agonia dos tractos que a primeira dá ao homem do povo. A religião, que falava aos sentidos do vulgacho, e por meio delles ao seu espirito, mataram-n'a; e como a morte não tem remedio, o protestantismo, creança de dous dias, mas já sem vigor e esfalfada, encommenda á religião das pipas o salvar os malaventurados obreiros, não do suicidio moral, mas ao menos do physico.
Dir-se-ha que o povo não está entre nós n'uma situação analoga á do povo inglez, para o catholicismo ser posto á prova? Felizmente isso é verdade. Mas já houve tempos quasi semelhantes, posto que ainda inferiores em terribilidade, aos que vão correndo para a gente miuda de Inglaterra. Era quando a peste devastava as nossas cidades e ermava os nossos campos, levando-nos ás vezes mais de um terço da população. Ahi existem innumeraveis monumentos dessas epochas desastrosas: que appareça um só por onde se prove que o desalento popular buscasse conforto no vinho e aguardente. Pois, cá, o remedio não era caro! O que achâmos são as preces, as romarias, as procissões, as lagrymas, os votos, o sentimento exaltado da confiança e da resignação na Providencia. Achâmos a pequena differença que vae de um christão a um bruto.
"E os irlandezes?"—Oh, bem sabemos que os irlandezes, catholicos como nós, na sua miseria monstruosa têm cahido, se é possivel, ainda mais fundo que os inglezes. Mas, em rigor, esses catholicos na intenção e na crença podem acaso sê-lo no culto que aviventa o espirito? Onde lhes deixou o protestantismo os seus templos, os seus sacerdotes, os seus costumes religiosos? O vulgacho irlandez é o argumento mais dolorosamente persuasivo da necessidade dessas festas, dessas alegrias, dessas fórmas materiaes do culto. Sem ellas, o catholico miseravel embrutece-se como o miseravel protestante; e o seu embrutecimento vem, por outra parte, recordar-nos de que não é possivel achar um nome, que qualifique devidamente o descaro com que o anglicanismo, inquisidor implacavel e tenaz de tres seculos, nos lança em rosto as trinta mil verdades e as sessenta mil mentiras, que, com justissimo horror, se relatam da Inquisição.
Eis o que nós podemos responder aos insulsos dicterios com que é diariamente vilipendiado o catholicismo portuguez: e não dizemos tudo; não dizemos metade. Quanto aos motejos que nos dirigem como nação pobre, pequena, fraca, isso não passa de uma covardia, que só deshonra a quem a practíca. Trabalhemos por levantar-nos da nossa decadencia. Será essa a mais triumphante resposta.
E com estas deambulações de patriotismo religioso saltámos a pés junctos pela historia do padre prior. No capitulo seguinte daremos satisfação plena ao pio e benigno leitor.
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[1] Bedlam, como a maior parte dos leitores sabem, é o mais famoso hospital de doudos em Inglaterra.
[2] Buret, De la misère des classes laborieuses (1842), Liv. 2. cap. 4.