BARTHOLOMEU DA VENTOSA.
A quem não tem succedido nas horas de solidão, no silencio da noite em que não póde dormir, ou no pino de dia calmoso, ao atravessar o bosque cerrado e sombrio, onde só se ouve o zumbir e o ferver dos insectos; a quem não tem succedido engolfar-se n'uma vaga meditação, e, por assim dizer, tombar de pensamentos em pensamentos, presos por fio tão tenue, tão imperceptivel para a consciencia, que, depois dessa especie de devaneio, pretender remontar da ultima á primeira idéa seria baldado empenho, por falta de transições naturaes e logicas? E todavia, a alma, que, nessa situação, como que perde o sentimento da vida externa lá achou, no seu incessante cogitar, uma ponte invisivel para transpôr os abysmos que a fria, coixa e orgulhosa razão humana suppõe existirem, quasi a cada passada, no mundo da intelligencia. Quando o espirito se desata dos corpos; quando a imaginação, depurando o senso intimo, o faz repellir a materia, fechando-se, como a mimosa pudica, á acção grosseira dos sentidos externos, o homem alevanta-se até o viver de além da morte, a luz dos anjos allumia-lhe as profundezas mais obscuras do universo ideal, e elle sabe quaes os caminhos e valles que unem as suas cumiadas brilhantes, unicos pontos que se podem enxergar da terra. O primeiro que disse "em tudo está tudo" teve uma destas revelações da imaginação pura, revelação completa do ideal, que não é mais do que a fusão da variedade absoluta e infinita na infinita e absoluta unidade.
Mas estes momentos, em que somos illuminados pelo sol da vida celestial, passam rapidos: o espirito cahe logo dentro dos limites da sua existencia de provança e desterro, e recordando-se confusamente daquellas inspirações passageiras, sorri-se e chama-lhes sonhos, abusões, desvarios. É que a pobre e suberba razão, myope advogada do lodo e do crepusculo, rejeita com horror as cogitações puras e luminosas, que Deus faculta ás vezes ao miseravel ente, creado quasi anjo por elle, e a quem o primeiro raciocinio que se fez na terra converteu em insensato e precíto.
E a que vem estas metaphysicas aqui? De que utilidade são ellas para a historia do parocho da aldeia, e da festa do orago, ha tanto tempo interrompida, e que até agora não tem passado de divagações por objectos sem ligação com a vida e costumes do reverendo padre prior?—"Venha o padre prior: venha a festa—dirão alguns—e deixemo-nos dessas metaphysicas modernas, que escorregam por entre os dedos, e não passam de feixe de maravalhas ao pé daquellas grandes philosophias dos ideologos, que até um sapateiro era capaz de estudar batendo a sola e apertando o ponto; philosophia de pão pão, queijo queijo; philosophia substancial; philosophia d'ouvir, vêr, cheirar, gostar, e apalpar, roliça, atoucinhada, confortativa. Se era necessario algum troço da sciencia do atqui e ergo para atar estes capitulos ou capituladas da chronica aldeian, porque não recorrer ao clarissimo Condillac, ao bis-clarissimo Tracy? Para que parafusar em entes de razão impalpaveis, em armadilhas que trescalam ás parvoices germanicas, quando estava ahi á mão a philosophia do senso commum, que é o senso patagão e russo, tupinamba e sueco, chim e dinamarquez, emfim o senso de todo o mundo?"
Ai, leitor, que ahi bate o ponto! Quem me dera isso! Quem me dera poder explicar por um capitulo tantos, paragrapho tantos, daquelle sancto homem de Locke, o que me succedeu ao escrever esta famosa historia, e lançar na balança da tua inflexivel justiça uma desculpa de obra grossa dos meus rodeios, desvios e viravoltas na ordem e disposição destes importantes estudos! Por mais que scismasse, por mais que afferisse pelos bons principios ideologicos o meu trabalho, sabia-me tudo torto: era querer levantar uma bóla com um gancho, ou firmar a taboa-rasa do philosopho inglez sobre uma das pontas de um dilemma. Como ageitar a minha narração deambulatoria pelas regras do methodo? Impossivel, impossibilissimo! Fiz então como Constantino Magno. Não achando escapula nem esperança na religião da materia em que me crearam, fugi para a religião dos espiritos, e por uma theoria de abstracção subjectiva expliquei, como Deus me ajudou, as minhas, aliás inexplicaveis, divagações. Encostado a ella como a uma columna de basalto (de basalto, porque as de marmore e de bronze estão muito safadas do uso quotidiano) rir-me-hei do mais abalisado doutor, que venha perguntar-me qual é a ordem logica das minhas idéas. A resposta está no que expuz: pontes intellectuaes, invisiveis, inappreciaveis pelas regras ordinarias do methodo; pontes que unem o branco ao preto, o circular ao anguloso, o proximo ao remoto. Fecho-me nisto. A imaginação que assim o fez, é porque assim devia ser: está muito bem feito, ao menos no mundo da idealidade pura. Foi lá que eu passei de um veneravel parocho d'aldeia, portuguez velho em costumes, em linguagem, em crenças, vulto poetico e sancto, para um inglez impertigado, monosyllabico, iconoclasta, libertador de pretos alheios, escravisador de saxões e irlandezes brancos; n'uma palavra galgei de um a outro pólo da humanidade. Foi lá, que eu pude tombar, rolar, precipitar-me do catholicismo suave, consolador, festivo, ameigador dos miseraveis, despresador dos poderosos suberbos, symbolisador, no seu culto, da igualdade ante Deus, para o anglicanismo perfumado, espartilhado, casquilho, tezo, aristocratico, nevoento, dizimador, intolerante, enxotador dos mendigos, camaroteiro dos templos; pude tombar, rolar, precipitar-me do vertice brilhante, d'onde derrama a sua eterna claridade o puro espirito do christianismo, no charco onde o mergulhou e affogou a vontade de um tyranno devasso do seculo XVI, e a van presumpção de sua filha, a pura, generosa, e sábia Isabel, especie de concilio Niceno de carne e osso para o protestantismo inglez. Dou vinte annos a todos os ideologos para explicarem por outro systema a transição monstruosa e incomprehensivel, que fiz a semelhante respeito nestes gravissimos estudos. Idealisei um inglez (foi façanha!), idealisei o meu bom prior, e no mundo da razão pura lá achei que havia entre essas existencias, infinitamente oppostas, uma affinidade: qual, não sei eu dizer, porque o esqueci: e ainda que me lembrasse, não saberia exprimi-lo. Dada esta explicação aos pechosos, vamos ás promettidas duas palavras sobre a festa.
Era um dia ardente de julho, a 27, cousa certissima para o leitor, em consequencia das minhas profundas investigações chronologicas. O sol ia alto: a igreja parochial, involta no manto tricolor—branco, amarello, e vermelho—cal, ochre, rôxo-terra—parecia rir no seu jubilo. Um moço do Bartholomeu da Ventosa, rapazote de quinze annos, quatro mezes, vinte quatro dias, e vinte tres horas e tres quartos completos (por ter nascido a uma segunda-feira, á meia noite menos um quarto, de dous para tres de março) neste grande dia do orago pilhára ao moleiro duas graças a um tempo, a de deixar em descanço o seu tonel das Danaides, a implacavel joeira, e a de poder assistir á festa e ouvir a missa cantada e o sermão, em vez de ir acabar o pesado somno da madrugada á missa das almas. Gabriel, que assim se chamava o rapaz, ou antes Graviel, segundo a mais euphonica pronuncia saloia, vestiu logo pela manhan as suas calças e jaqueta de bombazina em folha, e o seu colete vermelho, engenhado de um do patrão a trôco de dous mezes de soldada, calçou as botifarras novas, e enterrou o barrete azul e encarnado na cabeça, derrubando-o para traz, e sem fazer caso do almoço (pois era uma açorda que os anjos a comeriam) desandou, outeiro abaixo, pela volta das sete e trinta e cinco minutos da manhan, caminho da parochia. Via-se que um grande negocio lhe occupava o espirito, por isso que levava os olhos cravados no campanario, e sem fazer caso das trilhas, cortava por entre as restevas, escorregando, aqui, nas pedras soltas, levando-as, acolá, diante dos bicos agudos das botifarras. Chegou. O sacristão, que estava á porta da igreja, apenas o lobrigou poz-se a rir, porque logo entendeu o verso. Gabriel era um dos maiores pimpões em repicar sinos que havia entre a rapaziada do logar, mas desde que entrára para casa do tio Bartholomeu, nunca mais puzera pés no campanario. Nos meneios, no gesto, no olhar lhe revia a sêde, a ancia, a saudade das harmonias risonhas, doudas, estrugidoras de um repique desenganado. Vinha tão cégo, que só viu João Nepomuceno (assim se chamava o sacristão) quando deu de rosto com elle. Estacou embatucado; tirou o barrete, e começou a coçar a região occipital, olhando de revez para o sacristão, que se encostára á hombreira, com as mãos cruzadas atraz das costas, assobiando o Veni Creator.
"É-lé Graviel!—disse este por fim com um sorriso.—Você hoje campou. O patrão é festeiro; fica o moinho a dormir! Heim? Galdére; não é assim? Mas, cos dianhos! não sei como não vieste cá dormir. Bota os olhos acolá para o arraial. Vês? Duas bolaxeiras, e a tia Sezila com queijadas; e disse. Ainda nem sequer o Chico appareceu para começar o repique. Pois para isso não é cedo, que a missa da festa é ás dez em ponto. Já o padre Chaparro e frei José dos Prazeres estão na sancrestia, e dizem que não tarda ahi frei Narciso, que vem servir de mestre de ceremonias."
"Oh sô João de Permecena!—acudiu o saloio, que tornára, ao ouvir o nome do Chico, a enterrar o barrete na cabeça, mas desta vez á banda—com a sua licença, ha-me de perdoar: não sei o que fez em chamar n'um dia destes aquelle jimento do Chico para tocar os sinos. Aquillo!? Ora, deixa-me rir. Ha-de-a fazer bonita; não tem duvida? Olhe, sempre lhe digo…"
"Não digas nada: bem sei. Mas que dianho querias tu com uma cravella de doze que dá a menza da irmandade, e nicles? Mesmo o Chicho, deu-me agua pela barba para o resolver. Se aquillo são uns dianhos d'uns fonas!"
"Pois se vocemecê quer—interrompeu Gabriel, em cujos olhos se accendia o desejo, o deleite, e a esperança—eu lá vou. Hoje o patrão deu-me licença até ás trindades. Salto na torre, e vae tudo raso. Toco até aquella cantiga de Lisboa, que dizem que canta um tal Catragena em S. Calros: … totro, trão-balão, re-pim, piri-pim-pão."