Enthusiasmado, o moço do moleiro cantarolava, imitando os sons de um sino, ou antes de um tacho, a musica horrendamente aleijada, esfarrapada, assassinada do dueto de Assur e Semiramis: La sorte piu fiera. Se Rossini alli chegasse de subito, ou não a conhecia, ou enganava-se. O sacristão estava enlevado.

"Homem!—disse elle quando Gabriel parou—bom era isso: mas o
Chico está ajustado; e já agora….."

"É que o Chico é o seu padagoz: ha-me de dar licença que lho diga, senhor João de Permecena!—interrompeu o moço do moleiro, vendo apagar-se a luz que lhe illuminára o espirito.—Pois eu tocava ahi a desbancar ainda por menos: bastava que me pagasse um arratel de bolaxas e dous berimbáus."

"Eu cá não tenho padagozes, homem! Cos dianhos!—replicou o sacristão.—Se elle não estiver aqui ás oito, dou-te a chave da torre, e são hoje teus os sinos. Quando quizeres terás as bolaxas e os berimbáus."

A proposta de Gabriel penetrára como um balsamo suave na alma do sacristão: fazia a despeza com seis e meio, e economisava o resto para a igreja, isto é, para si, como representante della.

Gabriel saltou acima do parapeito do adro e poz-se a olhar para o lado onde morava o Chico. Batia-lhe o coração com força. Ás oito horas devia nascer para elle um dia de gloria e contentamento, ou de desdouro e zanguinha. Deram as oito.—"Viva!—bradou, saltando ao terreiro, e correndo ao sacristão.—Venha!—proseguiu, lançando mão da chave da torre com tal violencia, que João Nepomuceno por um triz não foi a terra. Ia-lhe quebrando um dedo.

"Dianho!… Safa, alimaria! Forte doido!… Oh Graviel! Ouve cá,
Graviel! Olha que está passada a corda da garrida…"

Qual Gabriel, nem meio Gabriel! Tinha desapparecido, semelhante a um foguete. O sacristão levantou os olhos para o campanario e viu já as cordas a bambearem e a desembaraçarem-se, como as tranças da nobre dama nas mãos subtis de aia geitosa. Gabriel era, sem a menor sombra de duvida, a flor e nata da rapaziada curiosa da aldeia.

Uma pancada retumbante e sonora no sino grande, a qual se repetiu lentamente algumas vezes, foi como um mensageiro, despedido por montes e valles, a annunciar um dia de repouso e folgares para o homem do campo, curvado sob o sol ardente nas ceifas e mais trabalhos ruraes do estio, durante os longos dias de trabalho. Era como o romper de uma vasta symphonia. Gradualmente os outros sinos misturaram as suas vozes argentinas com a do primeiro, e a atmosphera esplendida vibrou ondeando em tempestade de notas que se cruzavam, cortavam, interrompiam, luctavam em barbara harmonia. A principio Gabriel, pausado e lento, lançava successivamente uma ou outra mão a esta ou áquella corda: pouco a pouco os seus movimentos tornaram-se mais rapidos, e os sons que transudavam por todas as aberturas, pelos minimos poros da torre, começavam a assemelhar-se ao granizo do noroeste, que de instante a instante se torna mais espesso, ao passo que a nuvem corre mais perpendicular. Era, por fim, um remoinho, um delirio, uma furia sonorosa. Gabriel estava tomado de campanomania; mãos, pés, dentes, tudo repicava. Ennovelado, como um gatinho que quer agarrar e ao mesmo tempo repellir um dixe que colheu ás unhas, o bom do rapaz, com os olhos faiscantes e desvairados, parecia possesso: trepava, bracejava, careteava, tropeava, agachava-se, torcia-se, pulava, volteava, como se estivesse recebendo por todos os lados e a cada instante descargas electricas. Insensivel á matinada infernal, que lhe estrepitava nos ouvidos, Gabriel dirigia palavras de amor, d'ameaça, de incitamento aos sinos, como se elles podessem ouvi-lo. Queria communicar-lhes o seu ardor e enthusiasmo de dilettante; e como se o entendessem, dir-se-hia que, no contínuo vaivem, elles oscillavam tremulos de prazer, e tentavam desprender da pedra os braços robustos e voarem, como as aves que tambem soltavam livremente as suas harmonias pela amplidão dos ceus.

No fim de duas horas de lida a natureza recuperou os seus direitos. Alagado em suor, perdido o alento, esgotados os brios e as forças, Gabriel affrouxára pouco e pouco. A estrepitosa e horrenda caricatura do duetto de Semiramis fôra o canto do cysne. A viveza doudejante do repique converteu-se n'um tocar lento e solemne, que ora imitava o dobre de finados, ora os tres signaes melancholicos que indicam o fim do dia que expira.