TROVA SEGUNDA.

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Era um dia ao anoitecer: D. Inigo estava á mesa, mas não podia ceiar, que grandes desmaios lhe vinham ao coração. Um pagem muito mimoso e privado, que em pé diante delle esperava seu mandar, disse então para D. Inigo:—"Senhor, porque não comeis?"

"Que hei-de eu comer, Brearte, se meu senhor D. Diogo está captivo de mouros, segundo resam as cartas que ora delle são vindas?"

"Mas seu resgate não é a vossa mofina: dez mil peões e mil cavalleiros tendes na mesnada de Biscaia: vamos correr terras dos mouros: serão os captivos resgate de vosso pae."

"O perro d'elrei de Leão fez sua paz com os cães de Toledo: e são elles que tem preado meu pae. Os alcaides e potestades do rei tredo e vil não deixariam passar a boa hoste de Biscaia."

"Quereis vós, senhor, um conselho, e não vos custará nem mealha?"

"Dize, dize lá, Brearte."

"Porque não ides á serra procurar vossa mãe? Segundo ouço contar aos velhos ella é grande fada."

"Que dizes tu, Brearte? Sabes quem é minha mãe, e que casta é de fada?"