A essas pessoas só pediriamos, quando certos resentimentos infundados chegassem a acalmar, que reflectissem n'um phenomeno que tem diante dos olhos; que, digamos assim, as rodeia por todos os lados, e que é de uma significação indubitabel e immensa. Depois de terem reflectido, pedir-lhes-hiamos sómente que seguissem, não o que lhes dictasse o peior dos conselheiros, o amor proprio offendido, mas a voz intima de uma honesta consciencia.
Existe em Portugal um partido numeroso, dirigido por homens intelligentes, que ha vinte e cinco annos está organisado e disciplinado; partido moralmente tão legitimo como o partido liberal, mas que professa francamente o seu amor exclusivo ao passado, e cujos escriptores, usando dos fóros de cidadãos de um paiz livre, affirmam ha vinte e cinco annos perante Deus e o mundo o direito de o não serem, ou, para melhor dizer, o direito de não se lhes tolerar que o sejam. Na grande questão agita o paiz, e que nós cremos importar uma grave manifestação do pensamento reaccionario, ninguem mais do que esse partido tem mostrado zêlo ardente pela educação peregrina, e por tanto lançado com mais violencia o stygma de incapacidade moral e intellectual sobre as pessoas do sexo feminino nascidas nesta terra que possam dedicar-se ao magisterio. No symbolo daquelle partido, uma adoração supersticiosa da nacionalidade figurara entre os seus artigos fundamentaes por vinte e cinco annos; e quando, não esta ou aquella mulher, mas a mulher portuguesa, em geral, é vilipendiada, amaldicçoada, condemnada na sua capacidade moral e intellectual de mãe (porque a educadora é verdadeira mãe da infancia que lhe é confiada), esse partido apaga aquelle artigo fundamental do velho symbolo, e saúda a invasão estrangeira! E não a saúda só; declara-a a táboa de salvação das novas gerações. Não acha que apoderarem-se de orphãos adoptados pela patria seis mulheres e dous ou tres frades estrangeiros seja um facto insignificante ou indifferente. É que os homens eminentes desse partido tem estudado a historia. No seio delle não ha uma voz que se alevante para protestar contra a suppressão da mais exaggerada sentença do seu credo; não ha quem não marche alegremente ao combate. No meio das profundas fileiras do lazarismo, ou do jesuitismo, ou do ultramontanismo, ou como quizerem chamar-lhe, os vultos liberaes apenas raramente se descortinam, perdidos entre a multidão dos combatentes que detestam a liberdade. Sería o partido que sempre se mostrou tão leal, tão francamente e, não duvidamos dizê-lo, tão nobremente reaccionario, porque póde haver nobreza até no erro e no mal, seria esse partido assás insensato para fazer sacrificios taes, se não estivesse empenhado nisso o seu dogma supremo, a reacção? Valeria para elle a pena de se agitar, colerico e impaciente, por causa de seis mulheres e dous frades, e de combater com tanto azedume os que repellem essa importação estrangeira; elles, os homens da nacionalidade exaggerada? Se tal facto não disser nada aos transviados do campo liberal, então só nos resta deplorar a sua irremediavel cegueira.
Ha tres seculos que tambem dous frades de um instituto novo, chamado a Companhia de Jesus, entravam sósinhos em Portugal. Um delles abandonava logo este paiz para atravessar o oceano e ir embrenhar-se entre as gentilidades da Asia. Ficou o outro. Foi o que bastou para nucleo de uma associação, que em breve dominou tudo. A mocidade é amiga de novidades. Mancebos saídos do seio das mais nobres familias, outros nascidos entre o povo e entre a burguesia correram a alistar-se no gremio nascente, ao passo que os reforços estrangeiros chegavam pouco a pouco. Vinham, dizia-se, moralisar o paiz e instrui-lo pela religião. Homens de estado conspicuos, a universidade de Coimbra, a parte mais illustrada da sociedade era-lhes adversa, e fazia sinistras predicções, que o tempo se encarregou de justificar. O poder estava, porém, nas mãos do fanatismo, da hypocrisia, e sobretudo da imbecilidade intellectual. A liberdade da palavra, a liberdade do pensamento escripto, a liberdade de associação não existiam. Ponderavam-se os fins tão uteis do sancto instituto, o bem que tinha feito fóra do paiz, como por toda a parte o acolhiam. As reluctancias, estereis porque sem nexo, esmoreceram e calaram-se. A instituição estrangeira venceu, enraizou-se, dilatou-se e dominou. A historia politica, social e litteraria do paiz durante duzentos annos está ahi para responder aos que perguntarem quaes foram os resultados da influencia incontrastada e incontrastavel dos jesuitas.
Este exemplo memoravel e de triste recordação domestica deve ser inutil para nós? As apprehensões actuaes serão menos justificadas do que as dos homens instruidos, sisudos e experientes do meiado do seculo XVI? Ha quem diga que sim; ha quem pense que a historia serve só para pasto de uma curiosidade van; quem supponha que as leis da humanidade não são sempre as mesmas; que onde se derem causas identicas não se hão de repetir os mesmos effeitos. Deploremos a intelligencia dos que assim pensam. Dizem-nos que o espirito das congregações religiosas é diverso do que foi; que ellas não exercerão a perniciosa influencia que exerceram n'outras epochas, ao passo que podem ser grandemente uteis á illustração e á moralidade. Affirmam-nos que é preciso retemperar os antigos instrumentos de religiosidade para os oppor á irreligião do indifferentismo que invadiu as sociedades, e para fortificar o elemento christão, unico que póde combater com vantagem os delirios das novas escholas que poem em questão a propriedade e a familia, principios vitaes da existencia civil. A educação, dizem-nos, está fóra da esphera dos partidos: educae e instrui só por educar e instruir, e não cureis de saber qual será o destino politico das novas gerações. Ensinae-lhes os elementos da instrucção geral, a religião e a moral, de modo que depois se adaptem a todas as fórmas de governo, a todas as situações da sociedade.
Diz-se isto, escreve-se, proclama-se. Os que assim falam são os reaccionarios occultos, os transfugas do campo liberal, e tambem aquelles que devemos considerar como suas victimas, os que se deixam illudir pelos sophismas desses homens de trevas, que, não tendo a nobre ousadia de declarar lealmente que abandonaram os seus estandartes, calumniam a liberdade para a trahirem sem trahirem os proprios intuitos, e sem sacrificarem os proventos que lhes resultam da sua supposta permanencia na fileiras em que andavam alistados. Comparada com a linguagem destes, a dos reaccionarios puros é nobre, porque é franca e sincera. O mal, na sua opinião, não consiste nas aberrações do liberalismo; consiste no proprio liberalismo. As doutrinas liberaes conduzem logicamente, forçadamente, os povos aos desvarios anarchicos, á negação absoluta da ordem social. É precioso restaurar o passado nas fórmas mais absolutas, nas maximas extremas da igreja e do estado; expungir todos os axiomas, todas as idéas de progresso civil e politico dos ultimos dez ou doze lustros, todas as instituições d'ahi derivadas. Os progressos materiaes deste seculo são acceitaveis: nada mais. O molde social novo cumpre quebrá-lo, repondo as sociedades no antigo, unico em que podem salvar-se.
Entre este partido e o nosso está dicto tudo. Somos radicalmente adversarios. Podemos combater sem mutuamente nos desprezarmos; podemos ser mais ou menos violentos na lucta, sem que, em regra, em principio, nos accusemos de deslealdade. Não é esse partido, que nos obriga a defender esta Associação, e a expôr na imprensa os motivos da sua existencia, a sua indole, o pensamento que dirige todos os seus actos. As accusações d'alli vindas serão o seu melhor titulo para grangeiar a confiança do partido sinceramente liberal; porque os dous campos estão estremados e circumscriptos. O que importa é precaver-nos contra o mal que lavra nos proprios arraiaes; contra os inimigos que nos querem introduzir nelles como alliados. O fim dos nossos esforços deve ser repellir doutrinas que se vão pedir emprestadas ás theorias dos adversarios para se nos darem como idéas progressivas; deve ser repellir taes doutrinas principalmente nas suas applicações practicas.
Dizem-nos que estamos n'uma épocha de progresso, e não podemos retrogradar; que a publicidade, a discussão, a liberdade bastam para preservar a sociedade das aggressões da reacção. São phrases oucas, sem valor, nem alcance na questão que deu origem a esta Associação, porque não determinam nenhum facto especial. De certo que o genero humano progride no seculo presente; porque o progresso é uma condição impreterivel da sua existencia: progride neste seculo, como progrediu em todos desde as mais remotas eras. Nem os tempos tormentosos das invasões dos barbaros deixaram de ser uma épocha de progresso. Demonstra-o a historia. Mas tem esse grande facto de genero-humano impedido que, n'um ou n'outro paiz, domine a tyrannia depois da liberdade; que os fóros do homem tenham sido desprezados; que as nações tenham sido individualmente opprimidas, desmoralisadas, barbarisadas, dissolvidas, anniquiladas como entidades politicas? Concluir do progresso constante da civilisação geral que um povo não póde retrogradar, e que portanto não deve premunir-se contra a reacção que o aggride, é aconselhar ao homem que se não previna contra as causas ordinarias da morte, porque a raça humana tem por condição a perpetuidade.
A liberdade do pensamento, a discussão, a publicidade, as garantias, em summa, de um paiz livre bastam á defesa da sociedade. Mas então porque se acha extranho que pensemos livremente, que discutamos, que nos associemos, que usemos, dentro da estricta legalidade, d'esses meios que as instituições facultam aos cidadãos, para affastarmos um perigo que cremos sério e imminente? Porque a injuria, a colera, a calumnia? Dir-se-hia, ao ver os sanctos furores que se alevatam em regiões mais que suspeitas, que os nossos temores não são tão infundados, as nossas prevenções tão inuteis como se affirma, e que o perigo é verdadeiro e real.
A reacção não póde vencer-nos: cruzemos os braços! Como se julgaria o homem, que n'uma praça sitiada, mas defendida por centenares de canhões e por uma guarnição numerosa e aguerrida, clamasse aos soldados no momento do ataque:—«Não assesteis a artilheria: não marcheis para as muralhas; confiae na efficacia dos nossos recursos; cruzae os braços, porque a praça é inexpugnavel.»—Este homem não chegaria a ser reputado traidor: te-lo-hiam apenas por mentecapto.
Dizem-nos que a aggressão não existe; que a importação de um instituto estrangeiro, repugnante pela sua indole, pela sua regra, ás instituições do paiz, não é um symptoma, e mais do que um symptoma, um acto de reacção organisada. Examinemos esse facto em si: procuremos a sua causa.