Uma calamidade publica determinou subitamente na capital do reino a existencia de um grande numero de orphãos, que foram perfilhados pela compaixão publica. Sem aquella calamidade, esses individuos teriam recebido a educação no seio das suas familias, ou nos estabalecimentos de educação já existentes, e a sociedade não teria visto n'isso um grande mal. Eram os estabelecimentos publicos e privados, já instituidos no reino, e destinados á educação da infancia e da puericia, radicalmente incapazes de preencher o seu fim? Onde estão as provas? Cumpria crear um estabelecimento de educação diversamente organisado? Se assim era, as pessoas que tinham dirigido, mantido, protegido parte dos já existentes, o parlamento e o governo que mantinham e dirigiam outra parte, todos se haviam enganado, ou enganavam o paiz. Em perto de um milhão de mulheres portuguesas, não havia cinco ou seis que se podessem encarregar da sancta e nobre missão de serem as mães adoptivas dos orphãos tutelados pela commiseração publica? A sciencia da educação inspira-a Deus por metade ao coração da mulher, porque o destino providencial desta é a maternidade: a outra metade dão-lh'a as tradições domesticas, as recordações dos primeiros annos, o ensino dos livros e dos mestres e a observação da sociedade. Tinha-se Deus esquecido de nós? A mulher portuguesa ignorava, porventura, esses delicados affectos, essa arte instinctiva, com que o espirito feminil attrahe para o bem a infancia desprevenida, e lhe suavisa as asperezas inevitaveis do primeiro ensino? Dir-se-hia, acaso, que o typo da mulher mãe e mestra não existia em Portugal, ou existia em regiões tão elevadas, e por excepção tão singular, que descobrir no paiz quem podesse desempenhar as graves funcções de educadora seria um problema insoluvel? Se assim fosse, a familia não existiria entre nós senão por excepção, porque, a primeira e impreterivel qualidade da mãe de familia é possuir o instincto e os dotes de educadora. Onde se não dá essa condição, a familia não passa de uma juxta-posição de pessoas. Acreditar que esta fosse a nossa situação; que poderia ser a situação de alguma povo, seria presuppor um absurdo. Não se partiu, de certo, de semelhante hypothese para a introducção em Portugal das irmãs de caridade francesas. E se assim foi, digam-nos que meios empregaram para verificar a existencia de tão monstruoso facto?

Foi essa introducção apenas um capricho, uma puerilidade? Capricho, leveza pueril, poderia ter-se reputado, se a indignação, manifestada desde logo pelo sentimento nacional ferido, houvera ensinado a prudencia. Mas o sentimento publico só despertou coleras indiscretas e declamações apaixonadas. Isto prova que o facto não nascera de irreflexão; que fora calculado, discutido, apreciado, nos seus motivos e nas suas consequencias. Buscava-se o bem ou o mal; mas buscava-se alguma cousa importante. Podiam as pessoas que figuravam naquelle empenho não medir o seu alcance; mas atraz dellas estava decerto quem o medisse, e que talvez guardasse para si previsões e esperanças que não lhes revelava.

Nasceria o facto do desejo de dar a conhecer ao paiz systemas e methodos mais perfeitos de educação physica e intellectual? Cremos que se devem estudar os systemas de educação estrangeira, e adoptar aquillo que nelles for verdadeiramente util e applicavel a Portugal. Mas para isto não bastam nem servem algumas irmãs de caridade francesas collocadas á frente de um asylo-eschola. Suppondo que a França fosse o paiz classico da pedagogia, o que é mais que duvidoso[5], seria das escholas normaes de metras que alumnas nossas poderiam trazer a Portugal os aperfeiçoamentos de que carecessemos, ou alumnas dessas escholas vir introduzi-los, não n'um asylo-eschola, mas n'uma eschola normal.

A lei francesa de 15 de março de 1850, promulgada no meio do terror do socialismo, lei organica do artigo constitucional que proclamava a liberdade do ensino, permittiu ás congregações religiosas o magisterio sem a habilitação das escholas publicas. Queria-se oppôr o ensino clerical ao do professorado secular, que, na escala inferior, tendia, conforme se affirmava, para as idéas socialistas.

O titulo de capacidade das irmãs de caridade francesas para o magisterio está nas prescripções dessa lei de reacção fundada no medo, prescripções que, aliás, qualificam do mesmo modo os individuos de ambos os sexos pertencentes a quaesquer outras cengregações religiosas. Especialmente, as irmãs de caridade não tem habilitação alguma official como educadoras: tem apenas as provisões geraes da sua regra; mas nem essa regra indica systema algum de ensino, nem temos meio nenhum de verificar a bondade dos que seguem, se alguns seguem, a não ser a auctoridade da congregação lazarista, e as vagas affirmativas dos partidarios da educação clerical.

Que se póde esperar das congregações religiosas como instrumentos da educação? A circular do ministro de instrucção publica em França, de 19 de agosto de 1850, diz:—«Pelo que respeita á creação de mestras, as escholas normaes e os cursos normaes que existem tem feito serviços assás positivos para não se poder duvidar de que os recursos para manter essas escholas sejam facilmente votados»—e o commentador da lei de 15 de março. Rendu, accrescenta:—«A utilidade destas escholas normaes é tanto mais apreciada quanto é certo que em quasi todos os departamentos ha falta de mestras, falta provada pela experiencia diaria.»—O governo, portanto, que procurou entregar quanto fosse possivel a educação ao clero, appella especialmente para os antigos institutos seculares, e põe nelles a sua esperança de poder subministrar á França mestras habeis, ao passo que um dos homens mais competentes na materia nos revela que ellas faltam em quasi todos os districtos administrativos do imperio. Mas que fazem essas vinte ou trinta congregações a quem se tiram todas as restricções no ensino, e que devem salvar as gerações futuras da impia educação secular? A regra de S. Vicente de Paulo não excluiu o patriotismo. Enviando a este paiz inhospito e barbaro seis irmãs de caridade habilitadas para educadoras, o geral dos lazaristas privou a França dos seus serviços e trahiu o próprio dever, senão para com Deus, de certo para com a patria.

O que, porém, na realídade a circular do ministro e as palavras de Mr. Rendu provam é que o progresso da educação em intensidade e em extensão não ha de nem póde vir de se entregar o magisterio ás corporações religiosas, cuja impotencia no meio da liberdade de ensino que se lhes concedeu, sem garantias sequer para a sociedade, os factos estão demonstrando. Póde e ha de vir de institutos seculares liberal e fortemente organisados. A civilisação gradual e crescente das sociedades pela educação popular é uma das primeiras questões de governo, e não uma intriga de sacristia. Se ha paizes onde as paixões politicas a reduzissem a essas dimensões, deploremos os seus destinos, mas abstenhamo-nos de os imitar.

Assim, considerada pelo lado pedagogico, a introducção das irmãs de caridade francesas não correspondeu a nenhuma idéa de progresso; não satisfez a nenhuma necessidade da educação popular. Fugir-se-ha desta questão suprema para a de simples caridade? Dir-se-ha que o estabelecimento que serviu de pretexto á introducção desses frades e dessas mulheres não é propriamente um instituto de ensino, mas de beneficencia? Todos os absurdos se podem dizer quando se defende uma ruim causa, mas, em tal caso, porque excluir a mulher portuguesa? Porque reputá-la incapaz de carinho, de aceio, de religião, de moralidade? É licito, porém, admittir-se que o asylo entregue ao lazarismo seja apenas um abrigo para a indigencia material? As casas de asylo são essencialmente instítutos de educação. O mais superficial exame da sua indole o está provando. Se os homens da reacção ignoram até isso, citar-lhes-hemos uma auctoridade insuspeita para elles, a do actual governo francês. O decreto do imperador Napoleão de 21 de março de 1855 diz:—«As casas de asylo, quer publicas, quer livres, são institutos de educação»,—e a circular de Mr. de Fortoul de 18 de maio do mesmo anno declara-as—«casas de educação primeiro que tudo.»—De certo não seriam nem o senso commum, nem a opinião que prevalece em França que auctorisariam os fautores de educação lazarista a considerar o asylo confiado ás irmãs de caridade como simples instituto de beneficencia.

Se accusar as mulheres de um paiz em peso de falta de capacidade natural para a educação da infancia equivale a negar a possibilidade da existencia da familia, e portanto da sociedade, proposição de tal modo absurda que por si propria se refuta; se manifestações inequivocas nos provam que a introducção das irmãs de caridade francesas não foi um acto de capricho ou de inconsideração; se nem as doutrinas nem os factos relativos a tão grave assumpto legitimam aquella importação estrangeira no interesse do progresso do ensino, que resta para a explicar senão um pensamento de reacção social, pensamento que se tem, em assumptos analogos, manifestado na Belgica e no Piemonte, e que triumpha por outras partes?

Mas o que quer esta reacção? Para onde caminha? Até onde vai? É o sentimento christão que se pretende avivar, restaurando por elle a moral positiva e practica? É a fé amortecida no animo das multidões, que por um impulso sublime de caridade se lhes quer restituir em toda a sua benefica energia, com guia, consolação e esperança, no meio das miserias da vida? Não é nada d'isso. Se o fosse, esta Associação, justamente porque é composta de liberaes sinceros, de homens de ordem, de justiça e de paz, seria tambem reaccionaria. A reacção é o catholicismo posto ao serviço dos interesses mundanos; é uma parte importante do clero que se deixa assoldadar pelo absolutismo com a esperança de que fazendo retroceder os povos até o estado social que precedeu a liberdade, poderá um dia recuar ainda mais longe e restabelecer a supremacia clerical sobre o poder civil. É, por outro lado, o absolutismo, que, servindo-se dessa parte do clero, e da poderosa arma da religião, procura restaurar o proprio predominio, persuadido de que, depois de obtido o triumpho, conterá o seu perigoso alliado pelos mesmos meios que outr'ora empregou para o domar, a resistencia energica ás suas pretenções, e a participação generosa nos proventos dos abusos, violencias, espoliações e vexames com que por seculos flagellou a humanidade. A reacção é o abraço refalsado de dous poderes que se hostilisaram, que se perseguiram, que alternadamente se esmagaram muitas vezes durante seculos, e cuja paz nos ultimos tempos era apenas uma tregua que tacitamente ajustara a corrupção. O direito divino da monarchia absoluta e a supremacia do chefe da igreja sobre os monarchas são duas idéas que repugnam entre si; que ainda hoje mutuamente se condemnam na região das theorias, como durante sete seculos os seus representantes se tinham amaldicçoado, injuriado, despedaçado mutuamente, em nome de dous principios contradictorios, que se diziam ambos emanados do céu. O absolutismo e o ultramontanismo, dando um abraço fraterno dimittiram a historia. A desgraça aconselhava-lhes a união. Guardaram para tempos mais prosperos os odios mutuos, filhos de mutuos aggravos, e no vacuo que lhes deixava nos corações aquelle antigo sentimento ficou mais á larga o rancor contra a liberdade. Na lucta gigante que emprehenderam, para fazer retroceder a torrente impetuosa das gerações e das idéas, empregam a arte e a dissimulação onde lhes falta a força; a força onde a arte e a dissimulação se escusam. Onde e quando cumpre, o absolutismo prostitue e compromette a monarchia em serviço do recente alliado; o ultramontanismo prostitue e compromette a religião em vantagem do seu implacavel adversario de outr'ora. Os defensores do throno absoluto somem cuidadosamente debaixo dos degraus delle os processos, as sentenças, as providencias, as leis, com que, unanimes, os tribunaes catholicos e os soberanos da Europa fulminaram e anniquilaram a sociedade dos jesuitas, como um gremio de homens corruptos e criminosos: o jesuitismo esconde nos recéssos mais escusos das casas-professas as vastas bibliothecas da litteratura do regicidio, os volumes pulverulentos de Bellarmino, de Suares, d'Escobar, de Molina, de Juvenci, de Busenbáum, de Lacroix, de Mazotta, e dos outros escriptores, dos bons tempos da companhia de Jesus. A sancta alliança póde não ser duradoura, porque as reservas casuisticas estão atraz della; mas é intima e forte. Abonam-na os custosos sacrificios feitos pelos dous alliados sobre o altar da concordia.