Não cabe n'um artigo de jornal mostrar com a auctoridade do maior e mais antigo historiador da conquista romana na Hespanha, Polybio, citado (de um dos seus livros perdidos) por Strabão, que uma tribu de turdetanos ou turdulos se estabelecera na parte occidental da Beira, ficando separada dos callaicos pelo Douro;—que, assim, nem sequer pelo lado do oceano os limites de Portugal são os mesmos dos lusitanos ante-romanos;—que ainda quando os vettões não fossem uma tribu lusitana, o que é muito duvidoso, nem por isso a Lusitania deixaria de entrar pela Extremadura hespanhola;—e que, por tanto, não concordando por nenhum lado circumscripção territorial daquellas tribus com a do nosso paiz, não ha identidade de patria entre a raça antiga e o povo moderno, tanto mais que é certo ser o territorio dos lusitani, antes das divisões romanas, a menor porção do Portugal constituido definitivamente, com a conquista da provincia sarracena de Chenchir, no meado do seculo XIII.

O nobre auctor do artigo critico ao meu livro, parecendo accusar-me a mim de confundir as divisões administrativas da Hespanha debaixo do dominio romano com a divisão anterior dos povos indigenas, é quem na realidade confunde as duas especies para me provar que o Alemtejo era territorio dos lusitanos, fazendo os successos do tempo de Viriato anteriores ao dominio romano. Pois este dominio não estava estabelecido desde o tempo de Publio Cornelio Scipião? Não foi a guerra do chefe lusitano um verdadeiro levantamento? E por onde ha-de provar-me que no tempo dos pretores o territorio do Alemtejo não foi juncto á Lusitania propria só administrativamente, e que era povoado de lusitano? Não se oppõe a similhante opinião o texto formal do mais antigo e particularisador dos geographos que descreveram a Hespanha, Strabão, o qual nos diz: «Tago transmisso (lusitani) finitimos infestarunt»?

Eu não disse, como o meu critico assevera, que toda a Andaluzia e Extremadura hespanhola se podiam arrogar o titulo de lusitanas: o que disse foi que, se o haverem os lusitanos estanceado n'uma parte do nosso territorio nos désse o direito de os considerar como antepassados, esse direito pertenceria tambem à Extremadura, à Galliza, e à Andaluzia. A differença infinita das duas proposições é obvia. Não creio a segunda mui difficil de demonstrar, tanto mais sendo certo que a parte lusitana é a que constitue a menor porção do nosso paiz.

Tractando da prova de não identidade deduzida da transformação das raças, o auctor do artigo por paridade de circumstancias estende as conclusões, que d'ahi tirei para provar a minha doutrina, á Inglaterra e á França. Essa objecção nenhuma força me faz. Creio tanto que por este lado os inglezes e os francezes representem os kimhris e os gaels, como creio que nós representamos os lusitanos. A historia incertissima d'esses povos só pertence á França e á Inglaterra por identidade de territorio. É uma consolação para os genealogicos d'aquellas duas nações que não estou resolvido a invejar-lhes.

Diz o meu adversario, a quem não posso deixar de attribuir o epitheto de prodigo pelos demasiados elogios com que adoça as suas reprehensões, que, apesar de todas as conquistas em qualquer paiz, a raça indigena sempre fica sendo muito mais numerosa. Não sei se assim devemos figurar-nos as associações ou substituições de raças, principalmente tractando-se das migrações asiaticas que povoaram o sul da Europa. Essas tribus celticas, cimmerias, indo-germanicas, ou o que quer que fossem, deviam ser mui pouco numerosas pelas razões que ponderei no meu livro. Logo que começou a occupação da Peninsula pelas nações civilisadas, phenicios, carthaginezes, e romanos, os homens capazes de combater (e entre os selvagens são-no quasi todos) principiaram a sair da Hespanha pelos motivos que tambem lá se apontaram, ao passo que as colonias d'essas nações se estabeleciam largamente n'este solo. Quero conceder-lhe que a vinda de gregos, phenicios e carthaginezes não transformou senão por um terço o sangue indigena; que tambem a colonisação immensa e systematica dos romanos não o alterou senão por outro terço; e que a chamada especialmente invasão dos barbaros só por outro terço o corrompeu. Chega depois a conquista sarracena. Veem á Peninsula bereberes, arabes, negros; quantas castas de gente na Africa e em grande parte da Asia seguiam o islamismo; estabelecem-se; repartem as terras; fundam ou povoam cidades: os mosarabes, ou descendentes, dos romano-godos, ficam como sumidos no meio d'esta alluvião de novos habitadores de ambos os sexos, de todas as condições e idades. A reacção começa nas Asturias; a guerra dilata-se; a assolação e a morte reinam por seculos; os francos veem d'além dos Pyreneos ajudar frequentes vezes os seus correligionarios; a Berberia é um manancial perenne de novos collonos africanos; os chefes sarracenos usam da antiga politica romana, e levam milhares e milhares de mosarabes para os empregarem nas suas empresas além do estreito: e a Hespanha continúa a ser celtica! Na segunda metade do seculo XII achamos Affonso I e Sancho I povoando com colonias estrangeiras os desertos da Extremadura e do Alemtejo; desertos porque a guerra tinha sido viva por estes districtos durante trinta ou quarenta annos; e todavia, apezar de quinze ou vinte seculos de invasões e guerras, talvez ainda mais atrozes, a raça lusitana predominava nos rareados habitantes de Portugal! Talvez. Mas a mim figura-se-me isso como uma idéa absurda. Repugna-me. Será curteza d'intelligencia.

Quanto á lingua não contesta o meu contendor que a origem da nossa seja a romana: o que affirma é que a mudança essencial de lingua não prova a mudança essencial de raça. Uma cousa que desejava me explicasse era porque n'aquellas partes da Hespanha, da França, e da Inglaterra, onde pela historia sabemos que as conquistas e colonisações successivas d'estranhos não poderam no todo ou na maior penetrar ou fixar-se, os dialectos que ainda ahi se fallam hoje discordam absolutamente das linguas geraes d'estes paizes e se derivam das primitivas. Tracto com os conquistadores mais civilisados tiveram-no sempre os welshes, os bretões, os biscainhos: a differença esteve só em não se estabelecerem fixamente entre elles os novos senhores do seu paiz. Uma cousa me ha-de conceder o nobre critico, e é que os lusitanos, tão curiosos de não deixarem perder a sua casta no meio de tantas revoluções e da entrada de tantas gentes estranhas por vinte e cinco ou trinta seculos, andaram um pouco descuidados n'este negocio da lingua.

Pelo que respeita a dialectos, e a grammaticas, e a artes, e a medalhas anteriores ao dominio romano, falta provar que isso tudo é vestigio, não dos phenicios, gregos e carthaginezes, que se haviam estabelecido na Peninsula antes dos romanos, mas sim das tribus celticas. Quanto ás medalhas de lettras desconhecidas, permitta-me o atilado censor que, com Peres Bayer e Masdeu, antes as tenha por phenicias, punicas, gregas, e ainda latinas, do que por celticas.

Não chamei selvagens ás tribus da Hespanha antes da civilisação romana: chamo-lh'o antes de toda a civilisação, quer phenicia, quer grega, quer carthagineza, quer romana. Não está mais na minha mão: cada vez que fallo n'um lusitano, n'um callaico, n'um pelendão, n'um arevaco, dos primitivos e puros, figura-se-me logo um aymore, um tapuia, um tupinamba, serapintado e cuberto de pennas, de quem juro que nenhum dos actuaes brazileiros quer ser descendente; e o mais é que lhe acho alguma razão, apesar de que teem decorrido pouco mais de tres seculos desde o tempo em que no Brazil só havia d'essa gente, e desde que ahi se teem estabelecido colonias, não de cinco povos civilisados e de seis ou sete barbaros, mas só de portuguezes e até certo ponto de hollandezes.

Nunca pensei que os lusitanos me fizessem tornar a escrever tanto na minha vida! Vamos a assumptos mais serios.

A segunda para da censura involve uma questão de critica historica. Na opinião do nobre censor a minha não foi das melhores quando narrei a tomada de Lisboa. Vejamos porque: