1.^o As duas fontes a que quasi só podemos recorrer sobre este facto são as relações dos dois testemunhas oculares, Arnulfo e Dodechino: ora estas foram escriptas por estrangeiros, e como taes ávidos de gloria para si e para os seus: logo a sua narrativa é suspeita. Os portuguezes contentaram-se com a tradição.
2.^o Não é provavel que os portuguezes nada fizessem senão subirem á torre de madeira para de lá descerem atterrados pelos tiros dos cercados.
3.^o O combate de Sacavem não se segue que não existisse por se não mencionar nas dictas narrativas. Entre Santarem e Lisboa havia povoação moura. Que coisa mais natural do que ser Sacavem um ponto fortificado, que servisse de atalaia a Lisboa? O combate n'esse logar é não só provavel, mas quasi necessario.
4.^o Um auctor não pode desprezar de todo as tradições para dar inteira fé aos documentos, quando estes não teem todos os caracteres que o mereçam, senão em parte.
Eis as objecções criticas á narrativa da tomada de Lisboa. Não alterei senão a ordem d'ellas, porque me facilita o resumir-me na resposta.
1. Não é exacto que quasi só tenhamos as relações de Arnulfo e Dodechino para a tomada de Lisboa. Além de muitos outros historiadores coevos estrangeiros, que tractaram do successo mais ou menos largamente, temos os portuguezes: quatro que o mencionam em poucas palavras, e um, o auctor do Indiculum de S. Vicente, que o refere com maior extensão ainda que Dodechino. Servi-me de todos para apurar uma ou outra circumstancia. Do Indiculum, que é portuguez, tirei tudo o que alli se encontrava. E já se vê que é inexacto o que o illustre censor diz sobre o ficar entre nós só a tradição. Cinco escriptores para o mesmo acontecimento, em tempos nos quaes se escrevia pouquissimo, não me parecem provar que os nossos avós se mostrassem inclinados a entregar á tradição oral (a que o censor se refere segundo creio) a memoria da tomada de Lisboa. Tambem não me parece que tenha razão em affirmar que a narrativa de estrangeiros, porque eram estrangeiros (como taes), fica suspeita. Salvo se o censor me demonstrar que elles n'aquella épocha eram mais mentirosos que os portuguezes. Faz-me isto lembrar involuntariamente de que em Paris um francez é para dois inglezes, em Londres um inglez para dois francezes; em Lisboa um portuguez para trinta castelhanos, e em Madrid um castelhano para trezentos portuguezes. São opiniões. Eu estou tão persuadido de que, em regra, um homem é para outro, como o estou de que tanto pode fallar verdade ou mentir um portuguez como um mouro, um judeu, ou um chim.
É natural, não o nego, que pertencendo Arnulfo e Dodechino ao corpo dos cruzados se mostrassem mais attentos a narrar as façanhas dos seus que as dos portuguezes; mas que queria o nobre auctor da censura que eu fizesse? Que inventasse outras para attribuir a Affonso Henriques e aos seus guerreiros? De certo não. O que me cumpria era examinar se a narrativa dos dois estrangeiros continha alguma cousa improvavel para a rejeitar. Aponte-me, porém, o que ha improvavel no que aproveitei d'essa narrativa. É omissa a respeito dos portuguezes? Mas estes podiam fazer maravilhas sem que os estrangeiros deixassem de praticar o que d'elles contam os dois cruzados. Do que eu não tenho culpa é de que não chegasse até nós a memoria de taes maravilhas.
Peço ao douto censor que observe bem a relação do Indiculum. O frade portuguez (ao menos tenho-o por tal em quanto se não provar o contrario) é o que faz os maiores encarecimentos sobre o valor dos cruzados. D'elle é o periodo que transcrevi em nota a pag. 377. Em toda a carta de Arnulfo nada se lê que iguale esse periodo. Porque não diz o frade outro tanto dos seus? Quem o souber que o explique.
Mais: Affonso I mandou durante o cerco construir dois cemiterios—o dos francos e o dos inglezes—um ao oriente, outro ao occidente, para sepultar os martires de Christo que morriam pelejando. Porque não mando construir outro ao norte para os portuguezes? Parece que morriam menos, e os que morriam se accommodavam com os hospedes. O facto dos dois cemiterios não é de Arnulfo; é do Indiculum.
2.^o O que é verdade é que Affonso I era um homem grande; grande capitão e grande politico quanto um soldado rude o podia ser. Sem esses dotes não se funda uma monarchia, sobretudo no meio das difficuldades que elle superou. O mais natural é que poupasse os seus veteranos para outras occasiões arriscadas, que não lhe faltariam, nem faltaram, e que na tomada de Lisboa se aproveitasse habilmente do caracter cubiçoso, violento e audaz dos alliados para poupar quanto fosse possivel os subditos. Quem anda lido nos chronistas d'aquella epocha sabe que os taes martyres de Christo em presentindo avultado despojo atraz de qualquer muralha eram capazes de a desfazer com os dentes; e Affonso I lhes cedera o sacco da cidade. Vertendo o sangue para conquistar esta, trocavam-n'o por ouro; perecendo, conquistavam o ceu. N'aquelle tempo associavam-se bem o enthusiasmo religioso e a cubiça.