O coordenador.
Qual é o estado da nossa litteratura?
Qual é o trilho que ella hoje tem a seguir?
*REPOSITORIO LITTERARIO*
1834
Qual e o estado da nossa litteratura?
Qual é o trilho que ella hoje tem a seguir?
Estas duas perguntas pedem nada menos do que a dolorosa confissão da decadencia em que se acha em Portugal a poesia e a eloquencia, e o encargo difficultoso de indicar os meios de melhoramento no ensino e no estudo d'ellas. Sem pretender que sejam as unicas, nem as melhores, exporemos a serie das nossas idéas sobre este duplicado objecto.
A convicção de uma verdade litteraria produziu nos seculos XVI e XVII um erro na Italia, que, extendendo-se á Hespanha e a Portugal, transviou da legitima direcção todos, ou quasi todos os escriptores da epocha chamada do seiscentismo. Sentiu-se que a metaphora, a mais bella de todas as figuras poeticas e oratorias, a mais repetida, a mais necessaria mesmo nos discursos communs da vida, abundava por isso nos bons escriptores classicos e modernos, que já nesse tempo illustravam a Europa: viu-se que as passagens bellas ou sublimes de Horacio, Pindaro e Virgilio, de Dante e Ariosto, deviam-lhe em grande parte a sua belleza e sublimidade, e isto era certo; inferiu-se d'ahi que a metaphora era o principal e talvez o unico meio da poesia e eloquencia, e que ella devia revestir todas as imagens e sujeitar ao seu imperio todos os generos, todos os estylos, e isto foi um erro: a vertigem metaphorica se apossou dos poetas e oradores, e, por uma consequencia natural, o fundo das idéas esqueceu e só se olhou para as fórmas: á sombra d'esta mania prosperavam os conceitos e as agudezas, chegando as letras a caír numa barbarie, que tanto mais irremediavel parecia por ser filha da civilização litteraria já exaggerada. O Zodiaco soberano, Os crystaes d'alma, A Fenix renascida e outros muitos escriptos d'esse tempo, são lamentaveis monumentos da corrupção de gosto a que chegou Portugal no principio do decimo oitavo seculo.
Porém o mal não foi sem remedio, e os membros da Arcadia fizeram volver as letras á severa singeleza das puras fórmas da Grecia. Muito ae deve a Garção, Gomes e Quita; mas ninguem tanto como Dinis mostrou a superioridade do genio e do gosto que caracterizaram a segunda metade do seculo XVIII. Dando os seus principaes cuidados á poesia chamada pindarica, genero difficil pelo audaz das figuras, pelo gigantesco das imagens, elle soube escapar aos defeitos e frioleiras do seiscentissimo que bebera na eschola, em composições nas quaes era mui facil introduzir-se o mau gosto; e ainda que Quita e Garção tentaram o mesmo genero, em nosso intender, Dinis não foi emulado. Capaz de todos os tons, no burlesco, no pastoril, no dithyrambico, nos deixou apreciaveis exemplos, e as suas dissertações sobre a poesia campestre são dictadas por um grande conhecimento da arte, ainda que não excedam em merecimento theorico as annotações de Gomes ás proprias poesias, nem os trabalhos de Freire e posteriormente de Barbosa e Fonseca sobre as poeticas de Aristoteles e Horacio.