Entretanto nenhum dos poetas e litteratos do seculo de José I olhou as letras de um ponto de vista eminente. Similhantes aos escriptores do seculo de Luiz XIV, foram muito eruditos, mas pouco philosophos, e assim o caracter das duas litteraturas é a confusão dos principios absolutos com os de convenção. Cingindo-se quasi cégamente á auctoridade dos antigos, miudeada e explanada pelos commentadores, a sua obediencia illimitada a alheias opiniões contribuiu muito para a posterior decadencia. A impertinente questão dos archaismos e neologismos veiu tomar o logar das discussões da Arcadia e essa occupação dos meios talentos e da meia instrucção, influindo sobre objectos mais importantes, viciou e acanhou toda a litteratura. Se as notas, que sobre palavras e phrases Francisco Manuel ajunctou ás suas poesias, fossem dedicadas a coisas, quão ricas messes nós colheriamos do saber d'este homem! Mas infelizmente não foi assim, e a polemica suscitada sobre o merito do immortal cantor dos Lusiadas, pelos insultos que contra elle vomitou o orgulhoso auctor do gelado Oriente, mostraram a que mesquinho estado tinha a critica chegado em Portugal. Parte dos reparos que Macedo copiou dos criticos franceses ficaram sem cabal resposta, porque os systemas estheticos mais liberaes e philosophicos que o dos antigos, e o da eschola de Boileau, eram em geral desconhecidos entre nós, e estamos persuadidos de que o juizo a respeito do tão grande quanto infeliz Camões ainda resta a fazer, apesar da abundancia de escriptos que sobre este objecto se publicaram.
Emquanto assim entre nós a critica se apoucava, um sentimento vago de desgosto pelas antigas fórmas poeticas, a influencia da philosophia na litteratura, a necessidade que sentia o genio de beber as suas inspirações num mundo de idéas mais analogas ás dos nossos tempos, e emfim, varias outras causas difficeis de enumerar, começaram a crear na Europa uma poetica nova, ou, digamos antes, a fazer abandonar os canones classicos. A Alemanha foi o foco da fermentação, e foi lá que os principios revolucionarios em litteratura começaram a tomar desde a sua origem uma consistencia, e a alcançar uma totalidade de doutrinas methodicas e consequentes, não dada, ainda hoje, ao resto das nações. Lá não havia a luctar com a gloria nacional para a introducção de novas idéas, porque os monumentos da eschola afrancesada de Opitz não honravam demasiadamente o dogmatismo intolerante do seculo de Luis XIV, impropriamente chamado classico, e Bodmer e Breitinger deram começo á revolução ousando preferir a poetica de Shakspeare e de Milton á de Racine e de Boileau; comtudo as opiniões na Alemanha teem-se desviado, em parte, d'esta direcção e as idéas de Schlegel já teem reagido na sua tendencia um tanto nova, sobre a litteratura inglesa donde tiveram origem. Na França o antigo systema, amparado pelo renome de muitas producções immortaes, disputa ainda a campanha ás innovações que entre esse povo, extremo em tudo, teem chegado a um deseafreamento barbaro e monstruoso.
Mas a Portugal não coube o figurar nesta lide. A parte theorica da litteratura ha vinte annos que é entre nós quasi nulla: o movimento intellectual da Europa não passou a raia de um país onde todas as attenções, todos os cuidados estavam applicados ás miserias publicas e aos meios de as remover. Os poemas D. Branca e Camões appareceram um dia nas paginas da nossa historia litteraria sem precedentes que os annunciassem, um representando a poesia nacional, o romantico; outro a moderna poesia sentimental do Norte, ainda que descobrindo ás vezes o caracter meridional de seu auctor. Não é para este logar o exame dos meritos e demeritos destes dois poemas; mas o que devemos lembrar é que elles são para nós os primeiros e até agora os unicos monumentos de uma poesia mais liberal do que a de nossos maiores.
Comtudo, não existindo ainda um só livro sobre as letras consideradas de um modo mais geral e mais philosophico do que os que possuimos; sem uma só voz se-ter levantado contra a auctoridade de Aristoleles e de seus infieis commentadores, será impossivel emittir um juizo imparcial sobre escriptos de similhante natureza. Julgá-los por fórmas que o poeta não admittiu, será um absurdo, emquanto se não provar a necessidade d'essas fórmas; e isto, mesmo que ellas sejam legitimas, só pode ser resultado de um maduro exame ou de uma polemica sincera. Antes d'isso os velhos eruditos, vendo offendida a inviolabilidade de um tropel de preceitos que julgavam imprescriptiveis, só darão ao genio nascente o sorriso do desprezo; e os mancebos poetas, a quem o sentimento incerto das opiniões contemporaneas dirige por estradas que muitas vezes não conhecem, farão que as suas poesias corram brevemente parelhas com os desvarios que tem ultimamente manchado a mais bella das artes na França e na Inglaterra.
Um curso de litteratura remediaria os clamnos que devemos temer, e serviria ao mesmo tempo de dar impulso ás letras. Em Portugal ainda ha homens cheios de vasta erudição, de philosophia e de genio. Tyrannias mais ou menos longas, mais ou menos crueis, os teem conservado na obscuridade de que devem saír, agora que se não receia a instrucção, agora que os resguarda a egide da lei. Nós não desejariamos, porém, que uma tal obra fosse puramente orgão d'esta ou d'aquella eschola; d'este ou d'aquelle partido. Convem que os principios oppostos sejam examinados de boa fé e sem acrimonia: a intolerancia em idéas politicas ou religiosas é odiosa; em materias scientificas é ridicula. Se coubesse nas nossas diminutas forças um trabalho de tanta magnitude, nós começariamos por discutir qual é o objecto da poesia, e d'esta questão nos parece que já se tirariam importantes resultados, e que as duas caracteristicas—o icastico e o ideal—que distinguem as tendencias do antigo e do novo systema, surgiriam d'ella para nos servirem depois na resolução de varios problemas que se nos apresentariam na serie das nossas indagações. O exame das differentes theorias sobre o bello e o sublime, e as consequencias, objecto immediato a que nos conduziriam os primeiros raciocinios, dariam em resultado os principios necessarios e universaes de todas as poeticas, e consequentemente aquelles sobre que deveriamos emittir uma opinião absoluta e exclusiva: no resto respeitariamos as opiniões de cada povo, de cada epocha, em tudo aquillo em que ellas se não oppusessem aos principios geraes. Indagando a historia da poesia nos diversos tempos e nações, vê-la-íamos depois da queda da bella litteratura greco-latina, surgindo do norte com um sublime de melancholia e mesmo de ferocidade, proprio dos povos que a inventaram: veriamos esta poesia fundida com os restos da romana, e posteriormente com a arabe, produzir as diversas especies do romantico, d'essa poesia variada e verdadeiramente nacional, na França e nas duas peninsulas, e termo medio entre a bella symetria classica e o sublime gigantesco do septentrião: achariamos essa originalidade nascente da litteratura da meia-edade destruida quasi no resurgimento das letras, e substituida por theorias antigas, que, conservando sempre o mesmo nome, foram sendo enxertadas em idéas, em preceitos modernos: encontrariamos, finalmente, o espirito de liberdade e de nacionalidade da actual litteratura. O quadro das novas opiniões nas suas variedades todas, as vantagens ou damnos resultantes de cada uma comparada com os elementos universaes da arte, nos poria em estado de formar um corpo de doutrina que determinasse as proporções essenciaes da futura poesia portuguesa, completando ao mesmo tempo uma serie de juizos imparciaes sobre as producções das differentes eras e das differentes escholas, em relação ao seu genio particular, e á philosophia geral das letras.
Todos sabem que os antigos dividiam a eloquencia em tres generos, que muitas vezes se confundem: um destinado ao elogio ou á invectiva; outro a fazer condemnar ou a absolver, a invocar a lei a favor do innocente, a invocá-la contra o criminoso; outro, emfim, destinado a ventilar os grandes interesses das nações nos congressos ou na tribuna popular. Foi a estas três classes que elles reduziram a oratoria, divisão que ainda hoje se conserva e que, apesar da sua arbitrariedade, nós respeitaremos em nossas reflexões. Em Portugal, onde a representação nacional não existia, onde os tribunaes eram fechados ás defesas oraes e aos juizos publicos, e a arte de defender e accusar consistia geralmente em conhecer os meios de oppor entre si a nossa ora mesquinha, ora contradictoria, ora obscura legislação, e numa dialectica as mais das vezes pueril, tanto o genero deliberativo como o judiciario não tinham quasi applicação: ficava sómente a eloquencia dos panegyricos para o orador profano, e uma mistura de todos os tres generos para o orador sagrado; mas em nenhuma das duas classes temos de que nos gloriar neste seculo. Por uma parte elogios de encommenda ou feitos com miras de interesse pessoal não podiam sair da bocca do orador acompanhados das inspirações do enthusiasmo; e sem convicção e persuasão propria não se póde convencer nem persuadir os outros: por outro lado a eloquencia sagrada nunca pôde preencher inteiramente o fim da arte, uma vez que não divague do seu objecto—a moral religiosa. O fim da eloquencia é persuadir; para isto não só é necessario mover os affectos, mas tambem obrigar a razão. O usar d'este meio, nervo principal da oratoria entre as nações civilizadas, seria ridiculo perante um auditorio christão. O incrédulo não vai ouvir sermões, e o orador que empregasse uma logica severa para provar a conveniencia da moral do christianismo, a quem d'isso está de antemão convencido, obraria com tanta impropriedade, como se o missionario diante de homens de diversa crença buscasse tão sómente mover os affectos sem falar á razão.
O exemplo de dois grandes homens parece oppor-se ao que temos acabado de dizer. São elles Bourdalone e Bossuet: o primeiro empregando a severidade do raciocinio, o segundo tacteando todas as cordas do sentimento, excitando todos os terrores, todas as esperanças da imaginação, e ambos considerados como grandes modelos. Mas de que são elles modelos? É, justamente, d'essa eloquencia imperfeita, cujo vicio se contém na sua propria natureza. Com effeito, Bourdalone não preencheu, nos discursos em que se lançou no abysmo dos mysterios, o objecto da arte: esta dirige-se á vontade, pela acção; e a defesa metaphysica bem que eloquente dos dogmas christãos não requer acção alguma. Bossuet está no caso contrario: para que as suas orações tenham effeito é necessaria a fé. O homem indifferente em materias de religião, e que não possuir gosto bastante para avaliar seu merecimento, dormirá tranquillamente á leitura de qualquer d'ellas, em quanto uma philippica ou olynthia de Demosthenes fará sempre impressão em todo o homem que tiver uma patria, uma fortuna a perder. Sabemos quanto nos pódem oppor sobre estes dois oradores, e sobre a oratoria sagrada em geral; mas, não sendo possivel o entrar aqui numa questão bastante vasta que estas reflexões não comportam, lembraremos só aos leitores que nós consideramos os panegyricos e os sermões de controversia como alheios do pulpito; que Bourdalone, de todos os oradores sacros o que mais sentiu a necessidade dos raciocinios como meio da eloquencia, nos seus panegyricos fugia constantemente para a moral, o que nos faz crer que elle a considerava o objecto da sua arte como acima dissemos. Em ultimo logar transcreveremos uma cita da tentativa sobre a eloquencia do pulpito pelo abbade Maury, obra a mais acreditada entre as d'esta natureza: J'avoue, diz elle, qu'il est très-rare de pouvoir suivre cette marche didactique dans nos chaires, où les discussions morales ne sont jamais problématiques, et où la conscience, qui ne ment jamais, ne saurait contester la vérité à ses remords. O que entra justamente na ordem de nossas idéas, tanto sobre o objecto como sobre o defeito constitutivo da eloquencia sagrada.
Voltando ao nosso país, na mesma eloquencia do pulpito, a unica em Portugal cultivada, só um orador deixou pela estampa monumentos dignos de exame, se attendermos á fama popular que para seu auctor grangearam: já se vê que falamos do P. Macedo. Como orador sagrado, Macedo deveu a popularidade de que gozou a um falso brilho no fundo das idéas, e sobre tudo a essa instrucção perfunctoria que começa a invadir a capital e que é mais damnosa ás letras do que a ignorancia. Sem vislumbres da sublimidade de Bossuet, sem a uncção de Fenelon, sem a profundeza de Bourdalone, sem a nobre e evangelica simplicidade de Paiva d'Andrade, ganhou seu renome com os ouropeis de Seneca; mas tal renome, se ainda soar na posteridade, não será para as suas cinzas um bafejo consolador de gloria.
Porém não é a eloquencia sagrada que deve hoje chamar a nossa attenção: ella tem sido o luxo da religião, e nós desejamos vê-la substituida por meios mais conducentes a fazer prosperar esta. A bella e sublime moral do evangelho não precisa dos soccorros da arte de Demosthenes e Cicero; e a religião practica d'um clero virtuoso, seria a homilia mais eloquente para insinuar a moral do Crucificado.
Antes de passar avante occorreremos a um reparo que farão os leitores: o de não falarmos sobre a eloquéncia desenvolvida nas côrtes da nossa primeira epocha de liberdade, que fórma uma excepção de quanto dissemos sobre a eloquencia portuguesa do XIX.^o seculo. Tivemos para isso razões, e talvez a principal seja o quão longe nos levaria o exame de alguns discursos alli pronunciados; entretanto diremos por honra da nossa patria que então appareceram mui grandes homens, e que desejariamos ver publicar uma escolha das opiniões e relatorios então ventilados, á maneira do que se fez em França das orações dos representantes nacionaes desde o principio da revolução.