Por grande que deva ser a gratidão que se associa ás recordações d'aquelles que nos geraram, por funda que vá a saudade inseparavel da memoria paterna, no coração do bom filho ha um affecto não menos puro, e não menos indestructivel para o homem cujo espirito allumiado pela cultura intellectual tem a consciencia de que o seu logar e os seus destinos no mundo são mais elevados e nobres que os d'esses tantos que nasceram para viverem uma vida toda material e externa, e depois morrerem sem deixar vestigio. Este affecto é uma especie de amor filial para com aquelles que nos revelaram os thesouros da sciencia; que nos regeneraram pelo baptismo das letras; que nos disseram: «caminha!» e nos apontaram para a senda do estudo e da illustração, caminho tão povoado de espinhos como de flores, e em cujo primeiro marco milliario muitos se teem assentado, não para repousarem e seguirem ávante, mas para retrocederem desalentados, quando sózinhos não sentem mão amiga apertar a sua e conduzi-los após si. Tirai á paternidade os exemplos de um proceder honesto, as inspirações da dignidade humana, a severidade para com os erros dos filhos, os cuidados da sua educação, e dizei-nos o que fica? Fica um certo instincto, ficam os laços do habito, e para impedir que tão frageis prisões se partam, fica o preceito de cima que nos ordena acatemos e amemos os que nos geraram, ainda que a elles não nos prenda senão a dadiva da existencia, esse tão contestavel beneficio. Pelo contrario aquelles que foram nossos mestres; que nos attrahiram com a persuação e com o proprio exemplo para o bom e para o bello; que nos abriram as portas da vida interior; que nos iniciaram nos contentamentos supremos que ella encerra; para esses não é preciso que a lei de agradecimentos e de amor esteja escripta por Deus: a razão e a consciencia estamparam-na no coração: cada gozo intellectual do poeta, do erudito, do sabio, lh'a recorda, e quando elles se comparam com o vulgo das intelligencias, reconhecem plenamente a justiça do sentimento de gratidão que os domina.

Estas reflexões occorreram-me ao abrir o primeiro volume das obras da senhora marqueza de Alorna, condessa de Oeinhausen e Assumar, D. Leonor d'Almeida, que actualmente se publicam e de que já dois volumes se acham nitidamente impressos. E foi para mim um prazer verdadeiro escrever estas cogitações d'um momento. Aquella mulher extraordinária, a quem só faltou outra patria, que não fosse esta pobre e esquecida terra de Portugal, para ser uma das mais brilhantes provas contra as vãs pretensões de superioridade excessiva do nosso sexo, é que eu devi incitamento e protecção litteraria, quando ainda no verdor dos annos dava os primeiros passos na estrada das letras. Apraz-me confessá-lo aqui, como outros muitos o fariam se a occasião se lhes offerecesse; porque o menor vislumbre d'engenho, a menor tentativa d'arte ou de sciencia achavam nella tal favor, que ainda os mais apoucados e timidos se alentavam; e d'isso eu proprio sou bem claro argumento. A critica da senhora marqueza de Alorna não affectava jamais o tom pedagogico e quasi insolente de certos litteratos que ás vezes nem sequer entendem o que condemnam, e que tomam a brancura das proprias cãs por titulo de sciencia, de gosto, e de tudo. A sua critica era modesta e tinha não sei o que de natural e affectuoso que se recebia com tão bom animo como os louvores, de que não se mostrava escaça quando merecidos. Uma virtude rara nos homens de letras, mais rara talvez entre as mulheres que se teem distinguido pelo seu talento e saber, é a de não alardearem escusadamente erudição, e essa virtude tinha-a a senhora marqueza em grau eminente. A sua conversação variada e instructiva era ao mesmo tempo facil e amena. E todavia dos seus contemporaneos quem conheceu tão bem, não dizemos a litteratura grega e romana, em que egualava os melhores, mas a moderna de quasi todas as nações da Europa, no que nenhum dos nossos portugueses por ventura a egualou? Como madame de Stael ella fazia voltar a attenção da mocidade para a arte de Alemanha, a qual veio dar nova seiva á arte meridional que vegetava na imitação servil das chamadas letras classicas, e ainda estas estudadas no transumpto infiel da litteratura francesa da epocha de Luís XIV. Foi por isso, e pelo seu profundo engenho, que, com sobeja razão, se lhe attribuiu o nome de Stael portuguesa.

A vida d'esta nossa celebre compatricia acha-se á frente da edição das suas obras: para lá remetto o leitor. Ahi verá como em todas as phases da sua larga e não pouco tempestuosa carreira, ella soube dar perenne testemunho do seu nobre caracter de independencia e generosidade: verá que emquanto na terra natal primeiro a tyrannia e depois a ignorancia e a inveja a perseguiam, ella ia encontrar entre estranhos a justa estimação de principes e de illustres personagens da republica das letras. Ahi verá como nascida no seculo do materialismo, vivendo largos annos no foco das idéas anti-religiosas, acostumada a ouvir todos os dias repetir essas idéas por homens de incontestavel talento, ella soube conservar pura a crença da sua infancia, e expirar no seio do christianismo. Ahi finalmente verá como as ausencias, por vezes involuntarias, da sua terra natal, não puderam fazer-lhe esquecer o amor que devemos a esta, ainda no meio das injustiças e violencias de todo o genero.

O primeiro volume das obras poeticas da senhora marqueza de Alorna contém, afóra a vida da auctora, e uma noticia biographica do conde de Oeynhausen seu marido, as poesias compostas na mocidade. Boa parte d'estas foram escriptas no mosteiro de Chellas, para onde entrou de oito annos de idade com sua mãi, occorrendo a prisão do marquez de Alorna D. João. Encerrada naquelle mosteiro passou D. Leonor d'Almeida os annos mais viçosos da juventude, tendo para alegrar as tristezas de tão longo captiveiro que excedeu desoito annos, unicamente o linitivo do estudo, e os conselhos e affagos maternos. Quisera alguem que tivesse havido mais severidade na escolha das composições d'aquella epocha, algumas das quaes desdizem do primor que noutras posteriores se encontra. Eu lamento só que senão pudesse ajunctar a cada uma a sua data. Assim, bem longe de ter sido um inconveniente essa desigualdade innegavel, houvera ella sido um meio para se avaliarem bem os rapidos progressos da joven auctora, que nas obras de tão verdes annos annunciava já o seu brilhante futuro nos rasgos frequentes de um engenho ao mesmo tempo solido, delicado e vivo.

O resto do primeiro volume e o segundo contém as poesias da senhora marqueza posteriores á sua saída do mosteiro. Na disposição d'ellas tambem não se guarda o methodo chronologico: a natureza dos poemas determina a ordem d'elles. Julgar essa grande variedade de composições não cabia nos estreitos limites d'este jornal. Os que as teem lido, e que sabem entendê-las appreciam-nas devidamente. Ellas são um illustre monumento para a historia da poesia portuguesa, um nobre testemunho da piedade filial que as trouxe á luz publica, e para em tudo esta publicação ser apreciada, a sua nitidez typographica é uma prova dos progressos que a arte de imprimir tem feito entre nós[25].

FIM DO TOMO

Índice

Advertência Qual é o estado da nossa litteratura? Qual é o trilho que ella hoje tem a seguir? Poesia: Imitação—Bello—Unidade Origens do theatro moderno—Theatro português até aos fins do seculo XVI Novellas de cavallaria portuguesas Historia do theatro moderno—Theatro hespanhol Crenças populares portuguesas ou superstições populares A Casa de Gonsalo, comedia em cinco actos:—Parecer Elogio historico de Sebastião Xavier Botelho D. Maria Telles, drama em cinco actos:—Parecer D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna

Notas:

[1] Diz Mercier em uma annotação, que segundo nossa lembrança vem no 1.^o tomo de suas obras dramaticas, que a divisão de cinco actos é fundada em ser preciso atiçar cinco vezes as luzes do theatro em quanto dura uma recita.