XXV.
Oh, talvez, como o vate, ainda algum dia
Terei de erguer á Patria hymno de morte,
Sobre seus mudos restos vagueiando!
Sobre seus restos?—Nunca! Eterno, escuta
Minhas preces e lagrymas:—se em breve,
Qual jaz Sião, jazer deve Ulissea;
Se o anjo do exterminio ha-de risca-la
Do meio das nações, que d'entre os vivos
Risque tambem meu nome, e não me deixe
Na terra vagueiar, orpham de Patria.
XXVI.
Cessou da noite a grão solemnidade
Consagrada á tristeza, e a memorandas
Recordações:—os monges se prostraram,
A face unida á pedra. A mim, a todos
Correm dos olhos lagrymas suaves
De compuncção. Atheu, entra no templo;
Não temas esse Deus, que os labios negam,
E o coração confessa. A corda do arco
Da vingança, em que a morte se debruça,
Frouxa está; Deus é bom: entra no templo.
Tu para quem a morte ou vida é fórma,
Fórma sómente de mais puro barro,
Que nada crês, e em nada esperas, olha,
Olha o conforto do christão. Se o calis
Da amargura a provar os céus lhe deram,
Elle se consolou: balsamo sancto
Piedosa fé no coração lhe verte.
—«Deus compaixão terá!—Eis seu gemido:
Porque a esperança lhe sussurra em torno:
—Aqui, ou lá... a Providencia é justa.»
Atheu, a quem o mal fizera escravo,
Teu futuro qual é? Quaes são teus sonhos?
No dia da afflicção emmudeceste
Ante o espectro do mal. E a quem alçáras
O gemente clamor?—Ao mar, que as ondas
Não altera por ti?—Ao ar, que some
Pela sua amplidão as queixas tuas?
Aos rochedos alpestres, que não sentem,
Nem sentir podem teu gemido inutil?
Tua dôr, teu prazer existem, passam,
Sem porvir, sem passado, e sem sentido.
Nas angustias da vida, o teu consolo
O suicidio é só, que te promette
Rica messe de goso, a paz do nada!—
E ai de ti, se buscaste, emfim, repouso,
No limiar da morte indo assentar-te!
Alli grita uma voz no ultimo instante
Do passamento: a voz atterradora
Da consciencia é ella. E has-de escuta-la
Mau grado teu: e tremerás em sustos,
Desesperado aos céus erguendo os olhos
Irados, de través, amortecidos;
Aos céus, cujo caminho a Eternidade
Co'a vagarosa mão te vai cerrando,
Para guiar-te á solidão das dôres,
Onde maldigas teu primeiro alento,
Onde maldigas teu extremo arranco,
Onde maldigas a existencia e a morte.
XXVII.
Calou tudo no templo: o céu é puro,
A tempestade ameaçadora dorme.
No espaço immenso os astros scintillantes
O Rei da creação louvam com hymnos,
Não ouvidos por nós nas profundezas
Do nosso abysmo. E aos cantos do Universo,
Ante milhões de estrellas, que recamam
O firmamento, ajunctará seu canto
Mesquinho trovador?—Que vale uma harpa
Mortal no meio da harmonia etherea,
No concerto da noite? Oh, no silencio,
Eu pequenino verme irei sentar-me
Aos pés da Cruz nas trévas do meu nada.
Assim se apaga a lampada nocturna
Ao despontar do sol o alvor primeiro:
Por entre a escuridão deu claridade;
Mas do dia ao nascer, que já rutíla,
As torrentes de luz vertendo ao longe,
Da lampada o clarão sumiu-se, inutil,
Nesse fulgido mar, que inunda a terra.
A VOZ.
É tão suave ess' hora,
Em que nos foge o dia,
E em que suscita a lua
Das ondas a ardentia,
Se em alcantis marinhos,
Nas rochas assentado,
O trovador medita
Em sonhos enleiado!
O mar azul se encrespa
Co'a vespertina brisa,
E no casal da serra
A luz ja se divisa.
E tudo em roda cala
Na praia sinuosa,
Salvo o som do remanso
Quebrando em furna algosa.
Alli folga o poeta
Nos desvarios seus,
E nessa paz que o cérca
Bemdiz a mão de Deus.
Mas despregou seu grito
A alcyone gemente,
E nuvem pequenina
Ergueu-se no occidente:
E sóbe, e cresce, e immensa
Nos céus negra fluctua,
E o vento das procellas
Já varre a fraga nua.
Turba-se o vasto oceano,
Com horrido clamor;
Dos vagalhões nas ribas
Expira o vão furor
E do poeta a fronte
Cubriu véu de tristeza:
Calou, á luz do raio,
Seu hymno á natureza.
Pela alma lhe vagava
Um negro pensamento,
Da alcyone ao gemido,
Ao sibillar do vento.
Era blasphema idéa,
Que triumphava emfim;
Mas voz soou ignota,
Que lhe dizia assim: