IX.

Mas foi uma visão: foi como scena
D'imaginar febril. Creou-se, acaso,
Do poeta na mente, ou desvendou-lhe
A mão de Deus o íntimo ver da alma,
Que devassa a existencia mysteriosa
Do mundo dos espiritos? Quem sabe?
Dos vivos ja deserta, a igreja torva
Repovoou-se, para mim ao menos,
Dos extinctos, que ao pé das sanctas aras
Leito commum na somnolencia extrema
Buscaram. O terror, que arreda o homem
Do limiar do templo ás horas mortas,
Não vem de crença van. Se fulgem astros,
Se a luz da lua estira a sombra eterna
Da cruz gigante (que campeia erguida
No vertice do timpano, ou no cimo
Do corucheu do campanario) ao longo
Dos inclinados tectos, afastae-vos!
Afastae-vos d'aqui, onde se passam
Á meia-noite insolitos mysterios;
D'aqui, onde desperta a voz do archanjo
Os dormentes da morte; onde reune
O que foi forte e o que foi fraco, o pobre
E o opulento, o orgulhoso e o humilde,
O bom e o mau, o ignorante e o sabio,
Quantos, emfim, depositar vieram
Juncto do altar o que era seu no mundo,
Um corpo nú, e corrompido e inerte.

X.

E seguia a visão.—Cria ainda achar-me,
Alta noite, na igreja solitaria
Entre os mortos, que, erectos sobre as campas,
Eram ha pouco um fumo que ondeiava
Pelas fisgas do vasto pavimento.
Olhei. Do erguido tecto o panno espesso
Rareava; rareava-me ante os olhos,
Como tenue cendal; mais tenue ainda,
Como o vapor de outono em quarto d'alva,
Que se libra no espaço antes que desça
A consolar as plantas conglobado
Em matutino orvalho. O firmamento
Era profundo e amplo. Involto em gloria,
Sobre vagas de nuvens, rodeiado
Das legiões do céu, o Ancião dos dias,
O Sancto, o Deus descia. Ao summo aceno
Parava o tempo, a immensidade, a vida
Dos mundos a escutar. Era esta a hora
Do julgamento desses que se alçavam
Á voz de cima sobre as sepulturas?

XI.

Era ainda a visão,—Do templo em meio
Do anjo da morte a espada flammejante
Crepitando bateu. Bem como insectos,
Que á flôr de pego pantanoso e triste
Se balouçavam—quando a tempestade
Veiu as azas molhar nas aguas turvas,
Que marulhando sussurraram—surgem
Volteando, zumbindo em dança douda,
E lassos, vão pousar em longas filas
Nas margens do paul, de um lado e de outro;
Tal o murmurio e a agitação incerta
Ciciava das sombras remoinhando
Ante o sopro de Deus. As melodias
Dos córos celestiaes, longinquas, frouxas,
Com frémito infernal se misturavam
Em cahos de dôr e jubilo.

Dos mortos

Parava, emfim, o vortice enredado;
E os grupos vagos em distinctas turmas
Se enfileiravam de uma parte e de outra.
Depois, o gladio do anjo entre os dous bandos
Ficou, unica luz, que se estirava
Desde o cruzeiro ao portico, e fería
De reflexo vermelho os largos pannos
Das paredes de marmore, bem como
Mar de sangue, onde inertes fluctuassem
De humanos vultos indecisas fórmas.

XII.

E seguia a visão.—Do templo á esquerda,
Méstas as faces, inclinada a fronte,
Da noite as larvas tinham sobre o sólo
Fito o espantado olhar, e as dilatadas
Baças pupillas lhes tingia o susto.
Mas, como zona lucida de estrellas,
Nessa atmosphera crassa e afogueada
Pela espada rubente, refulgiam
Da direita os espiritos, banhado
De inenarravel placidez seu gesto.
Era inteiro o silencio, e no silencio
Uma voz resoou—Eleitos vinde!—
Ide precítos!»—Vacillava a terra,
E ajoelhando eu me curvei tremendo.