A assolação á terra.
De noite no bosque,
Na gandra deserta,
No viso do monte,
Do valle na aberta,
Á luz das estrellas
As armas fulgiam,
E ouviam-se ao longe
Corceis que nitriam:
Horrendo propheta
O abutre passava,
E sobre as encostas
Calado pairava:
Depois, na alvorada,
Com gritos sem fim
Saudava do sangue
Vizinho o festim.
E á voz das trombetas,
Ao trom dos canhões,
Ao som das passadas
De vinte esquadrões;
E em meio do fogo,
Do fumo alvacento,
Em rolos ondeando
Nas asas do vento,
De agudas baionetas
A renque brilhante
Tremente avançava,
Ao brado de—ávante!»
E ao baço ruído
Dos leves ginetes,
No plaino calcando
Da relva os tapetes,
Os ferros cruzados
Luctavam tinindo,
Peões, cavalleiros
De involta ruindo,
E a ferrea granada
Nos ares zumbia,
E aos seios das alas
Qual raio descia.
E aos ares, revolta,
A terra espirrava,
E o globo encendido
Um pouco se alçava,
E prenhe de estragos,
Com fero estampido,
Mandava mil golpes,
Em rachas partido.
E as horas passavam
Em scenas de morte;
E o abutre mirava
Os trances do forte.
Na garganta da serra ou sobre o outeiro,
Pelo pinhal da encosta ou na campina,
Nesse dia de atroz carnificina,
Negros uns vultos vagueiar se viam:
A cruz do Salvador na esquerda erguida,
Na dextra o ferro, preces blasphemando,
«Não perdoeis a um só!—feros bradando,
Entre as fileiras rapidos corriam:
E era o monge que bradava,
E era o monge que corria,
E era o monge que, blasphemo,
Preces vans a Deus fazia;
Vans que, á tarde, nesse plaino
No sangue d'irmãos retincto,
Só restava o moribundo,
O cadaver só do extincto.
E por gandras e por montes,
Aterrados, perseguidos,
Em desordenada fuga
Retiravam-se os vencidos.
E os vencidos eram esses
Que a esperança da victoria
Arrastára, miserandos,
A uma guerra impia, sem gloria!