Decerto não sentia a falta da antiga cantora, mas a diva d'outro tempo percebia que Paris lhe faltava.
Estava prestes a ser inaugurada a nova Opera, e Laura não assistiria á inauguração!
Felizmente, por entre as saudades e os desalentos, conservára intacto no coração o amor que tinha por Antonino.
É verdade que o marido adorava-a como no primeiro dia de casados, mas elle não tinha um passado de que lembrar-se, em quanto que ella, ao casar-se, dera metade da sua vida despresando a arte.
O amor dos dois esposos, substituira o ardor da paixão dos primeiros tempos pelo prazer ineffavel do habito tomado.
E ella consolava-se, chegava a encantar-se até, quando, por uma bella manhã de sol, sahiam ambos,{170} e atravessavam bosques e prados, caminhando ou correndo, na alegria doida de dois collegiaes em férias. Passeiavam sobre a relva, ella appoiada ao braço do marido, e levantando um pouco as saias para não as molhar nas plantas humidas, ou conservando-se direita, o tronco bem vertical sobre os quadris airosos, em quanto Antonino, curvado, cortava com as unhas os pés das violetas, de que Laura fazia, ramos deliciosos, cercados de folhas d'um verde pallido.
Muitas vezes o caminho que seguiam afundava-se n'um declive pedregoso, ou descia até á praia.
Divertiam-se então em saltar precipitadamente, como creanças, elle segurando-a por uma das mãos, e ella levantando com a outra as saias, que tremulavam ao vento como um ruido d'azas, n'um vôo d'aves anciosas de liberdade.
Paravam na areia, e sentavam-se para contemplar a baixamar ou a maré que subia.
E ficavam-se por muito tempo a admirar as ondas lambendo com fragor as saliencias dos rochedos, ou traçando na superficie lisa e clara da areia o seu rasto sinuoso, coberto d'espuma.