—N'uma palavra: deshonrei a tua familia, não é verdade? interrompeu Laura.
—Não digo tanto, mas...
—Na realidade admiro-te! disse a viscondessa irritando-se tambem. Para que quizeste introduzir-me n'essa sociedade que não era a minha, n'essa sociedade em que entrei como que de surpreza, e que, segundo todas as probabilidades, me fechará ámanhã as suas portas? E eu por que accedi aos teus desejos? Sabes porque? Porque te amava! Censurar-me-has tambem por isso? Tens pouca memoria, Antonino; Quem te ouvisse, pensaria que, casando commigo, tu me levantaste da lama, em que eu vivia. Sabes bem que não é assim, sabes bem que eu, casando comtigo, pratiquei um acto d'abnegação, immolando-te e ao amor que por ti sentia, o que até então fôra a minha alegria e a minha vida, a arte, o renome, a gloria! E esse sacrificio do primeiro dia, dura ainda, perpetua-se, persisto n'elle e renovo-o incessantemente. E jámais te dei a perceber quanto elle por vezes me tem sido pesado e cruel, sobretudo depois do nosso regresso a França, depois que vivo n'esta atmosphera{245} de provincia em que respiro a custo, e que sinto diminuir em mim os dotes artisticos que possuia. Pois em vez de tentares fazer-me esquecer esse passado que me é querido, vens, pelas tuas palavras, como que transformal-o n'um crime! É muito! Revolto-me contra o teu procedimento! E visto que me forças, recordar-te-hei que me prometteste solemnemente deixar-me voltar para o theatro, logo que assim o desejasse, voltar para esse passado que te envergonha, mas que é a minha maior gloria!
—Prometti-te tambem, Laura, que o meu amor te recompensaria do sacrificio feito. Deixei de amar-te por ventura? Não te amo agora como te amava d'antes?
—Não, não me amas! Se me amasses como d'antes, não te porias ao lado da sociedade contra mim, collocar-te-ias a meu lado contra a sociedade!
—A sociedade! repetiu Antonino inquieto. Reconciliar-nos-hemos com ella..
—Muito bem! Empregarás todas as diligencias para que me tolerem, não é verdade? Não, não, obrigada. Despreso esse obsequio, que se assemelha a dó. Deixo-te n'ella; fica, fica n'essa sociedade em que eu era uma estranha, em que eu não passava de pária!
Laura fallava com vehemencia, exaltada pela colera e pelo desgosto.{246}
Antonino respondeu passados alguns instantes de silencio:
—Estás como eu, Laura, sob a impressão do incidente que ambos lamentamos. Como ha pouco te preveni, nada podemos dizer agora sobre esse assumpto, que não augmente o mal estar que sentimos. Vou deixar-te. Ámanhã estarás mais socegada. Até ámanhã...