Abriu-se a porta do quarto.

Laura voltou-se.

Era Antonino que entrava.

Ao chegar junto da esposa, disse-lhe com voz grave e firme.

—Vim, porque prometti voltar. Mas o que venho fazer aqui? O que poderemos nós dizer sobre a deploravel scena que ha pouco se passou?

—Parece-me, respondeu Laura, que devias consolar-me pelo desgosto que soffri. Como conscienciosamente sabes, eu não tive a menor culpa do que succedeu.

Antonino replicou com amargura:{243}

—E eu muito menos, concorda. Tens, minha querida, amigos bem perigosos e bem ridiculos!

—Não é d'hoje que os conheces. Apresentei-te Remissy nos primeiros dias das nossas relações. Foi a fatalidade que dispoz as coisas. De resto, se era improvavel, não era impossivel que o facto se desse. Ter-se-hia evitado se, como eu desejava, não me obrigassem a cantar no concerto. Pois se eu não tivesse como que uma especie de pressentimento de que se passaria o quer que fosse de desagradavel, insistiria por ventura para não ser incluida no programma? Foi teu pae, e tu proprio, que não annuiram aos meus pedidos. Cedi, porque não podia deixar de o fazer. O enthusiasmo de Remissy desmascarou-me. Se eu tivesse cantado mal não teriamos agora que lamentar-nos. Censurar-me-has, por ventura, por ter cantado bem, fazendo com que me applaudissem? Não devo ser accusada d'esse crime, se o foi, porque não sou responsavel por elle. Lavo d'ahi as minhas mãos.

—A verdade é que não és tu quem mais soffre com tudo isto, respondeu Antonino meio irritado. Que te importa que se saiba que és a Linda? É um nome que tornaste celebre, e que estimas,—sem duvida muito mais,—do que aquelle que actualmente usas. Mas para mim e para a minha familia, esse nome, cahindo bruscamente, sem preparações, sobre o{244} publico, vae servir de maná á malignidade de toda a gente, que nos escarnecerá e diffamará. Seremos repellidos da sociedade que até aqui frequentavamos, passaremos por pessoas que desprezaram a opinião publica, enganando os amigos e os parentes.