Laura não respondeu.
O tenor proseguiu:
—O meu amor é muito sincero e ardente. Se não fosse para a possuir não poria em pratica esta tentativa arrojada, ou criminosa, segundo o modo de ver de cada um de nós. Mas o meu amor proprio está agora comprometido n'esta empreza tambem. A sr.ª, ha muito tempo, tem-me despresado, motejado, ridicularisado; eu, declarei, jurei publicamente, que mereceria todo o seu desprezo se não conseguisse tel-a um dia nos meus braços. Por emquanto ainda não perdi a esperança, e espero, até, conseguir em breve o fim desejado. Em todo o caso, mesmo na peor das hypotheses, deve concordar que as apparencias são{309} por mim. Por agora pouco importa que eu seja ou não seu amante. O essencial é que, para os espectadores, o pareça. Ora parecel-o-hei, evidentemente...
Laura sorriu com desdem.
Elle continuou:
—Deixe-me acabar e ria depois. Medite,—porque ainda é tempo,—e verá que o que mais lhe convém é baixar o revolver e entregar-se á minha generosidade. Procederei como um perfeito cavalheiro, desde já o declaro. Mas reservar-me-hei o direito de fallar, e previno-a de que fallarei. Será essa a minha compensação e a minha desforra.
O tenor fez uma pausa.
A Linda deu aos hombros despresadoramente.
—Imagina que não me acreditarão? Ouça: limitar-me-hei a affirmar que a tive esta noite nos meus braços. Estamos sós: quem poderá contradizer-me? É de suppor que o visconde de Bizeux me peça explicações; espero mesmo que isso succeda. Recusar-me-hei a dar-lh'as. Elle esbofetear-me-ha e eu matal-o-hei, porque desgraçadamente succede-me esse precalço sempre que me bato. Não será em virtude d'esse duello em perspectiva e da morte do visconde que as minhas palavras deixarão de ser acreditadas, ao contrario. Mas haverá mais do que as minhas palavras, haverá provas e testemunhas. A prova eil-a: ao entrar vi sobre aquella mesa o seu retrato em miniatura,{310} ao lado do retrato do visconde. Dei-me pressa em guardal-o—para possuir uma recordação sua. Eis o testemunho: pela manhã sahirei, não pela porta que deita para a rua, mas pela que abre para o vestibulo. O porteiro, ao ver-me, perguntar-me-ha sem duvida quem eu sou e d'onde venho a hora tão matinal, e eu responder-lhe-hei que me chamo Lauretto Mina, que sou tenor da Opera, e que saio de casa da sr.ª Laura Linda, amante do sr. visconde de Bizeux...
—É engenhoso, mas um pouco cobarde! disse uma voz por detraz de Lauretto.