Comtudo José Marcia fingia admirar as composições paternas, por fórma que o pobre velho morreu cheio d'illusões, legando-lhe confiadamente a realisação da sua gloria posthuma.
Não foi, porém, o pae, mas o filho quem conquistou a gloria dia a dia, a que poderia ter junto a riqueza, se não houvesse uma coisa que elle despresasse mais do que a nobreza: o dinheiro.
Ganhou quantias importantissimas, mas como de ordinario as suas despezas egualavam as receitas, quando não as ultrapassavam, é claro que jamais poderia juntar um pequeno capital.
E comtudo não esbanjava o dinheiro; apenas, como elle dizia rindo, não sabia tratar dos seus negocios.
Dava concertos em extremo lucrativos, mas deixava que o emprezario embolsasse a maior parte dos ganhos.{32}
Era auctor d'um methodo celebre e gosava d'incontestada e incontestavel reputação como professor, mas os seus discipulos predilectos não era os que pagavam melhor, eram os que possuiam mais habilidade, e que d'ordinario não lhe pagavam.
Vem a proposito, contar uma historia de que riu toda a gente em Madrid.
Um banqueiro riquissimo incumbiu José Marcia de leccionar particularmente um filho, retribuindo-o principescamente.
Por infelicidade não só o rapaz não tinha tendencia para a musica, como tambem era um preguiçoso de primeira ordem, que só pegava no violino durante o tempo das lições.
Ao cabo d'um mez, José Marcia, impacientado, participou ao pae do seu discipulo que as suas occupações não lhe promettiam continuar com a leccionação. O banqueiro, ao receber este aviso, limitou-se a duplicar a remuneração das lições.