—Sou tão preguiçoso! dizia o tenor no foyer dos artistas. Não tenho paciencia para sustentar um prolongado cerco a uma mulher tão bem defendida. Cedo o logar a qualquer outro assaltante de mais solida perseverança. Renuncio a ser o primeiro, mas juro por Venus e pelo Amor, que serei o segundo.

Um outro apaixonado, mais amoldavel, foi Remissy, violinista hungaro, um original, segundo uns, e um doido segundo outros, mas um grande, um verdadeiro artista.

Remissy foi a Milão para ouvir José Marcia, de quem elle admirava o talento, apesar de deferir muito do que possuia o violinista hungaro.

Viu Laura, e, como era facilmente impressionavel, inflammou-se d'enthusiasmo pelo talento e pela belleza da cantora, simultaneamente.{39}

A Linda, porém, tratou-o com meiguice e alegria, a que não era estranho um certo desdem, e todo o fogo de Remissy extinguiu-se subitamente.

—Tem cem vezes razão! dizia-lhe elle. Não pode tomar a serio um maluco como eu. Além d'isso, eu não estou perfeitamente certo de que não me enganasse, e não adore apenas a sua voz, o que é muito possivel. Andaria duzentas leguas para a ouvir! A sua voz transporta-me ao setimo ceu! Convencionemos o seguinte: não serei seu amigo, serei seu idolatra. E desde já te peço licença para te tratar por tu, como á divindade!

De todos os seus apaixonados que eram bons e sinceros, Laura fazia amigos.

Na primeira plana d'esses convertidos estava, em Paris, o dr. Despujolles, o medico considerado como a verdadeira providencia dos theatros, sobre tudo dos theatros de canto.

Quem estivesse rouco pela manhã podia cantar á noite como um rouxinol, mercê das magias homœopathicas do dr. Despujolles.

Foi um pouco mais recalcitrante que Remissy, á cura, homœopathica tambem, do amor pela amisade, mas como além d'intelligente era honesto, acabou não só por se resignar, como tambem por estimar o papel que Laura lhe confiava.