Entretanto continuava triste e visivelmente inquieto.
Como percebia o estado em que o filho estava, o conde, ao fim d'uma semana, chamou-o e disse-lhe:
—Tu soffres Antonino. Deixa-me dar-te um conselho: volta para Paris. Parece-me que te falta um pouco de coragem e de dignidade. Amas uma mulher que não te conhece e que só te viu quanto a salvaste. Não pode ter-te amor, é certo; mas quem te diz que, conhecendo-te melhor, não virá a amar-te? Pelo que sabes d'ella, a Linda só pensa em arte, não amou nunca, não amará talvez. Mas approxima-te, não como uma creança que teme, mas como um homem que não recua nem ante uma decepção, nem ante um grande desgosto. Quem sabe se, quando a conheceres bem, não acharás que Laura não corresponde ao teu sonho!
Antonio abraçou o pae com effusão, agradecendo-lhe reconhecido aquelle conselho viril, e partiu de Saint-Malo quasi tão precipitadamente como deixára Paris.
Ao partir telegraphou a Despujolles, dizendo-lhe{59} que o procuraria no dia seguinte, e pedindo-lhe para o acompanhar a casa de Laura.
Pelas duas horas da tarde do outro dia entraram ambos no salão da cantora, prevenida antecipadamente pelo medico.
—Trago-lhe emfim o selvagem! disse o dr. ao entrar.
Laura estendeu a mão a Antonino, dizendo-lhe com a mais graciosa simplicidade:
—Agradeço-lhe o ter vindo. Detesta a sociedade?... Tem rasão. Mas eu não pertenço a essa sociedade, sou apenas uma mulher. Verá que sou excellente camarada, muito sincera, que gosto muito d'alguns amigos, e que me sentirei verdadeiramente feliz se o homem que me salvou a vida quizer pertencer ao numero restricto d'esses amigos.
Em seguida fallou, a Antonino do proprio Antonino, como se fallasse d'elle ao dr. Despujolles.