—Não o amo, nem o quero amar... disse bem, repetiu Laura.

Antonino fez um gesto de desgosto.

Laura ajuntou suavemente:

—Não se zangue commigo, e sobretudo não soffra. Sem duvida lhe disseram o que tinha sido a minha vida até aqui, mas vista e julgada por estranhos. Ouça-me agora.

E seguidamente contou-lhe a educação que recebera, as suas primeiras impressões, e o duplo fluido de que ella era por assim dizer formada: o pae transmittira-lhe o culto pela arte, a mãe guiara-a por forma a ter sempre a consciencia tranquilla, e a vida pura.

Depois a cantora disse, pensativa:

—Portanto não me accuse, como teem feito varios, de frieza, de sequidão. Sinto em mim instinctos de ternura e d'expansão, aos quaes não basta a sincera{83} affeição que tenho aos meus amigos. Creio que só o amor pode encher completamente o coração. Olhe, para se consolar um pouco, vou dar-lhe uma prova de confiança absoluta, dizendo-lhe o que só se diz a um irmão: ha em mim, em gráu bastante elevado, um sentimento que herdei de minha mãe, a mais estremosa das mães: o sentimento maternal. Todas as creanças que vejo, produzem-me uma impressão inexplicavel, tenho por ellas uma adoração completa: adoro-lhes os gestos, os sorrisos, a voz balbuciante, a alma por definir. Ter uma creança que fosse meu filho, é para mim um sonho delicioso; ter um filho do homem que amasse, é outro sonho que considero impossivel de realisar-se!

—Porque?

—Porque? Sob a apparencia d'uma mulher phantastica, eu sou, garanto-lhe, uma mulher seria. Não quereria, não poderia amar um homem que não fosse meu marido.

Houve um silencio.