Antonino cortou-o dizendo com voz grave:

—Escute-me agora, Laura: sou absolutamente livre e senhor das minhas acções, e da minha vida. Por coisa alguma d'este mundo affligiria ou daria o menor desgosto a meu pae; mas o homem que me deu o ser possue alma generosa e elevada como poucos, e tem por mim um amor sem limites. Não me amará{84} ainda, Laura, mas, se diligenciar amar-me, é possivel que o consiga. Pois bem: prometta-me que no dia em que tal succeda, consentirá em ser minha mulher!

—Sua mulher!... disse a cantora admirada.

Depois, com os olhos marejados de lagrimas, accrescentou:

—Ah! como lhe agradeço a grande prova d'estima que acaba de dar-me! Como as suas palavras me commovem! Será por me ter salvo a vida? Não sei, mas o que é certo,—e já ha bocado lh'o disse,—é que fui attrahida para o senhor por um vivo sentimento de sympathia, e se o não amo ainda, parece-me que não necessitaria fazer grande esforço para o conseguir. Levanta-se apenas uma difficuldade, que de novo lhe aponto: não quero amal-o!

—Mas porque?

—Porque o sr. visconde não póde nem deve casar commigo.

—E se os nossos desejos estiverem d'accordo, que obstaculo poderá separar-nos?

—Um obstaculo insupperavel. É impossivel que o sr. visconde Antonino de Bizeux case com uma mulher de theatro, que, mesmo depois de casada, não renunciará á scena.

—É impossivel, disse?