Estava resolvida a ter com Pozzoli as relações indispensaveis que sempre ligam a escripturada ao emprezario, unicamente.
Entretanto não podia deixar d'ir á soirée, que era dada em sua honra, e na qual devia cantar um ou dois trechos de musica.
Ficaria muito reconhecida ao visconde, se elle annuisse a pôr de parte a repugnancia que sentia, e assistisse á soirée tambem.
Necessitava que Antonino estivesse presente, para velar por ella.{92}
—Devo confessar-lhe um dos meus maiores vicios, accrescentou Laura, rindo; sou jogadora. Não sei explicar nem me desculpo d'esta falta. O jogo produz-me emoções tão extraordinarias, que as procuro e as adoro. Não deixe d'ir, para que me contenha e afaste até, se eu, como costumo, me deixar influenciar demais.
—A acreditar no que se diz, respondeu Antonino, não é para a minha amiga que a minha attenção deve voltar-se, se jogar com Pozzoli.
—Bem sei. Diz-se que é muito feliz ao jogo, que principalmente os seus escripturados não devem jogar contra elle, porque muitas vezes lhes tem ganho um anno d'ordenados. Pela minha parte garanto-lhe que nunca vi coisa alguma justificativa d'essa triste reputação de Pozzoli. Apenas uma vez joguei contra elle, e levantei-me ganhando cento e cincoenta luizes. Mas não importa; se é verdade o que se diz, isso é mais uma razão para não deixar d'ir á soirée. Vae?
—Irei.
A cantora ficou satisfeita por fazer com que o visconde desempenhasse o papel de seu protector e conselheiro.
Sentia immenso prazer pedindo-lhe que a guiasse e reprehendesse, confessando-lhe as suas faltas e a sua ignorancia.