Apesar de ser um assumpto de que pouco conheço, não creio que para nos abrir o mercado do Transvaal baste a iniciativa do governo, que, quando muito, poderá apenas fornecer, por meio dos agentes consulares, as indicações geraes dos mercados aos viticultores{35} nacionaes e os dados estatisticos sobre que se possam basear.

A meu vêr, os commissarios e exposições poucos resultados podem dar e a experiencia bem o tem mostrado. Vão effectivamente os vinhos, faz-se uma propaganda official, os individuos que os bebem acham-nos geralmente bons e... mandam comprar os vinhos que estão habituados a beber. Não julgo facil, n'um paiz como o Transvaal, habitado por uma população ingleza em parte, introduzir de repente typos de vinhos differentes dos vinhos do Cabo, que são os que mais frequentemente se encontram por toda a parte.

O meio a seguir, parece-me, deveria ser procurar, por meio dos nossos variadissimos typos, imitar, pelo menos nos primeiros tempos, os vinhos de maior consumo no Transvaal, preparando-os. Um commissario, enviado de Bordeus para estudar o alargamento do mercado de vinhos na republica sul africana, foi d'esta opinião, no relatorio que apresentou no seu regresso a França, e isto tratando-se dos vinhos de Bordeus que tão largo nome têm. Este modo de proceder tem já sido empregado para a fabricação de certas marcas especiaes de Champagne barato, de largo consumo no sul da Africa; não foram os francezes procurar convencer os sul africanos de que o Champagne, que é preferido n'aquella{36} região, não é bom e verdadeiro Champagne, mas fabricam-lh'o segundo o seu gosto.

Além do Champagne, o Xerez, o Vermouth e muitos outros vinhos são largamente consumidos no Transvaal, e muitos d'estes não vêm de França, Hespanha ou Italia, mas dos paizes onde com igual facilidade se fabrica o Porto ou Madeira que nunca sahiram de Portugal.

Fazer despezas importantes para que os nossos typos de vinhos sejam preferidos, é, creio, empreza pouco realisavel e muito dispendiosa, mas sobretudo inutil, porque se o chegassemos a conseguir, logo os nossos vinhos seriam imitados por quem tivesse interesse em o fazer.

Assim, procurar conseguir vinhos semelhantes aos do consumo no paiz, dar-lhes boa apparencia e envasilhal-o de um modo agradavel á vista, parece-me ser o meio de alargar o consumo dos nossos productos entre a população sul africana; agentes commerciaes, trabalhando por interesse proprio, collocal-os-iam com facilidade.

Claro está que isto só diria respeito aos vinhos de pasto; os nossos vinhos generosos têm uma reputação universal e não conviria mudar-lhe os typos, bastando apenas que os agentes consulares perseguissem os contrafactores, que os ha e não poucos, até em Africa.{37}

Além dos vinhos, as conservas poderão ter tambem consumo facil desde que vão melhor e mais artisticamente acondicionadas. É frequente em Africa, receber conservas de fructas portuguezas perfeitamente em papas, contrastando com o bello aspecto das fructas da California.

Ainda outros generos poderiam ser introduzidos quer na nossa colonia quer na Africa do sul, de que o nosso commercio poderia tirar largos lucros.

Mas, além do commercio, os capitaes portuguezes teriam tambem muitos meios de se empregar com vantagem, aproveitando os interesses que os capitaes estrangeiros vão auferir em Lourenço Marques.