--Oh! foi ainda por sua causa, Luiz, mas perdoe-me!
E Magdalena cahiu-lhe de joelhos aos pés, soluçando convulsivamente.
Eram as consequencias da sua imprudencia!
--Por minha causa! disse Luiz ironicamente. Nada creio, nem quero justificações. Foi porque assim o quiz e fez muito bem. E V. Ex.a teve razão. Pois quem era, quem sou eu? Um homem sem fortuna, sem um nome pomposo, expatriado, d'uma familia humilde e ignorada, que tem apenas por brazões as gotas do suor do seu trabalho, por timbre a honra, por divisa, a virtude, em quanto que V. Ex.a é a senhora D. Magdalena, a filha riquissima, a herdeira unica do ex.mo capitalista Jorge de Macedo!
Magdalena, profundamente magoada com as palavras de Luiz, sentiu uma violenta commoção nervosa, levantou-se de subito, recuou dous passos, perfilou-se, e exclamou n'uma como explosão, que era a prova mais evidente da dôr aguda que estava sentindo:
--Basta, senhor! nem tanto! Não se abusa impunemente da fraqueza d'uma mulher, e é mais que crueldade estar a fazer-lhe derramar lagrimas de sangue! Envergonho-me agora de as ter chorado e lamento devéras a loucura, que me obriga a esta humilhação em que me vejo, ha meia hora, na sua presença! Confiou muito pouco em mim, senhor Luiz, e muito menos, ainda em si. Julgou-me uma creança imprudente, uma mulher vulgar, uma mulher leviana! Estava no seu direito! O que não tinha era direito para me insultar as lagrimas de que me arrependo agora, porque não merece! Não quer justificações; pois bem, não as terá e se acaso voltar a pedir-m'as não se admire de lh'as recusar!
--Ah! e, demais a mais, é orgulhosa!
--De certo. Pois que esperava, vindo provocar-me tão pouco benevolamente?
--Que tivesse menos hypocrisia e mais consciencia.
--O senhor Luiz esquece-se, de certo, que está fallando com uma mulher! Consciencia!