--Desconheço-o... Porque me falla assim? interrogou Magdalena com a voz em lagrimas.
--Porque? Ainda m'o pergunta? Porque vejo que V. Ex.a é uma mulher, como todas as mulheres, vulgar, sem um ponto unico que a eleve acima do nivel das outras, quando a julgava um anjo, um ente superior, uma d'estas pombas immaculadas, que o mundo não sabe apreciar, infelizmente! Porque a julgava uma perola de subido valor, e vejo agora que é apenas a concha da praia, sem merito de qualidade alguma! Porque a tinha como flor, capaz de perfumar com toda a felicidade os dias d'amor, que lhe depunha aos pés, e venho encontral-a rosa eivada de milhares d'espinhos envenenados! Porque lhe vi o mel nos labios, a doçura na voz e o céo nos olhos, quando, afinal V, Ex.a só preparava a victima para lhe despedir a punhalada! Porque a julguei sincera, no meio do devanear sublime do meu sentimento affectuoso, quando tudo em V. Ex.a era a mascara, debaixo da qual se escondia uma grande hypocrisia... toda a sua preversidade, emfim!
--Oh! eu não lhe mereço isso! exclama ella com duas lagrimas nas pupillas.
--Bem sei; são ainda as lagrimas do crocodillo! Era realmente bonito, e sobretudo, digno de V. Ex.a que um homem andasse a rojar-se-lhe aos pés, a entregar-lhe tudo, pensamentos, alma corpo, vida, futuro, crenças e aspirações, em quanto que V. Ex.a, zombando da sua fé, zombando do sentimento e da sinceridade d'esse homem, se ria, brincando com elle, como se brinca com um objecto qualquer, que nada vale! Era realmente bonito, era, e, sobretudo, uma grande gloria para V. Ex.a! O que não sei é como V. Ex.a vivendo isolada desta sociedade corrompida e depravada, põe em prática os principios da philosophia d'ella! O que não sei é como V. Ex.a, sendo tão nova, tem já tanta maldade!
--Por piedade, Luiz, não me accuse, não me affronte d'esse modo, porque eu estou innocente!...
--Innocente!...
--Innocente, sim! E se não, diga-me qual é o meu crime, a minha culpa, o meu peccado!...
--Ainda m'o pergunta! Já o esqueceu, talvez, como pôde esquecer que invocára, n'um momento de hypocrisia, a memoria sacratissima de sua mãe, para me fazer um protesto d'amor!
--Oh! muito, eu... bem vê que não tenho forças para tanto!... soluçou ella, inundada de lagrimas.
--É muito! é muito! diz V. Ex.a! O que não será, então, rojar um homem aos pés d'uma mulher todas as flores purissimas do seu amor primeiro, acolher cheio d'esperanças um sorriso. d'amor d'essa mulher que lhe fica sendo vida, ar, luz e tudo, para depois, esquecendo a loucura d'esse homem, aproveitar uma curta ausencia para dizer a um outro:--Venha que o espero a tantas horas da noute! O que será isto, minha senhora, se acha muito o que me está ouvindo?