--Ah! ah! ah! vens, de mais a mais um pouco tragico. O que faz o amor!
--Americo! bradou Luiz quasi de todo exaltado.
--Começam as ameaças?
--E não ha duvida em que comecem tambem as obras. Retira-te, que já te não vejo. Não me provoques, porque te desprezo, como reptil asqueroso! Sahe! Não me obrigues a sujar a mão na lama que tens na cara!
--Luiz! gritou Americo, agarrando em um tinteiro.
--Canalha! bradou Luiz, estendendo-lhe a mão na face bronzeada, com a força d'um desesperado.
Estava travada a lucta. O mulato tinha mais força physica, mas Luiz possuia mais força moral e era mais corajoso. Aquillo foi um vulcão que se accendeu subitamente. Um instante depois estavam enlaçados um no outro, n'uma lucta medonha, incrivel e desesperada. Sentiam apenas o ruido dos pés, movendo-se aos impulsos fortes de um e outro lado, e a respiração abafada de cada um dos contendores. Americo só tentava lançar Luiz a terra, este porém resistia valentemente. E n'um momento favoravel atirou um murro ao infame que lhe fez logo brotar o sangue do nariz. O mulato enfureceu-se pela dôr e pelo orgulho, exasperou-se damnadamente, e atirou as mãos ao pescoço de Luiz, n'uma expressão de raiva desmarcada, no intento mesmo de o estrangular.
E de certo o teria feito; sem duvida, seriam funestas as consequencias d'aquella contenda se não fosse a apparição, no momento fatal, de um homem, cujo olhar quasi paralysou completamente a acção do mulato.
Era o cabinda, era o velho, mas sympathico, o negro, mas dedicado, o escravo, mas d'alma grande.
O negro vinha encarregado d'entregar a Luiz a carta de Jorge de Macedo. Muito contente da sua missão, porque lhe dizia o coração que se andava tratando da ventura de sua filha, o negro transpoz apressadamente a distancia que vae do Botafogo ao Rio, á rua dos Pescadores.