--E com razão. Pois V. Ex.a, cercada de todas as commodidades da vida, dos extremos e affagos d'um pae, que é mais que muito carinhoso; nova, formosa, permitta-me V. Ex.a esta verdade; vendo realisados todos os desejos, satisfeitas todas as vontades; V. Ex.a, que é, que deve realmente ser muito e muito ditosa aos olhos de toda a gente, e aos olhos proprios, confessa que sente saudades, e não ha de querer que eu, exilado, sem familia, sem estes nadas da vida, que a dulcificam e embellezam, me admire e espante d'essa confissão?
--Que quer? Tenho-as, sim, mas tambem não sei de que, para lhe fallar a verdade.
--Comprehendo. N'esse caso melhor será que V. Ex.a diga antes que tem desejos... E emfim, quem sabe? Na idade de V. Ex.a, na idade florida dos amores, dos enthusiasmos, das alegrias, das expansões e dos sonhos formosissimos, ha sempre, póde pelo menos haver, muita vez, algumas d'essas melancholicas florinhas, que são, então, como pequeninas nuvens no azul d'um céo estrellado e deslumbrante.
--Não é isso, disse Magdalena levemente contrariada. Não é isso, porque eu nunca amei.
--Ah! V. Ex.a nunca amou?
--Nunca, pelo menos que eu saiba, respondeu ella ingenuamente.
--Mais um motivo para eu crêr que o que V. Ex.a tem, são desejos de amar e ser tambem amada.
--Talvez, accudiu Magdalena córando, e pregando em Luiz os seus negros, grandes e formosos olhos.
--E acreditaria V. Ex.a no amor do primeiro homem, que ousasse render-lhe um culto, confessando-lhe esse sentimento?
--Conforme. O coração é que havia de decidir.