--Insultas-me! exclamou elle.
--Não; digo a verdade.
--Dizes a verdade! bradou Luis com ironia. Havia de fazer engulir-te a phrase se não conhecesse que fallas despeitado. Fallas dos pobretões dos portuguezes! Que seria de ti e dos teus se não fossem elles! Morriam todos de fome, haviam de ser uns miseraveis! Nós é que trabalhamos, nós é que vos sustentamos, pódes ter a certeza d'isto. Se vos levamos o dinheiro, levamos apenas uma parte do fructo do nosso suor, ficando tu e todos os teus com a outra, com a maior, sem o minimo esforço de corpo e de espirito; se nos ligamos com as vossas filhas é por que as merecemos, é porque somos verdadeiramente dignos d'ellas, para não dizer que mais honra lhes vai com estas allianças, do que a nós. Repito; eu queria vêr o que seria de vós se não fossem os pobretões dos portuguezes; de vós, que apenas nascesteis para vos bamboleardes na rêde, indolentes, occiosos, tomando o vosso café e fumando o vosso cachimbo.
--Seja como fôr; não discuto nobrezas de nacionalidade. O que te digo é que hei-de empregar todos os meios para conseguir Magdalena.
--E eu affirmo-te que nem um só vingará.
--Veremos.
--Veremos. Declaras-te meu inimigo, atiras-me a luva, levanto-a. Conheço agora que has-de usar de todas as armas, desde a hypocrisia, desde o ardil apurado até á infamia, até ao crime refinado. Pouco importa. Hei-de bater-te com a verdade, só com ella te hei-de derrotar. Todavia, recommendo-te prudencia, porque se o meu braço se envergonhar de castigar-te, talvez haja quem o faça sem que o esperes.
--Ameaças-me?
--Não; previno-te.
--Pois bem; eu me defenderei.